Cultivando arte e cultura insurgentes


“Ghost in the Shell” procura humanidade em meio ao código

Na adaptação de Mamoru Oshii, protagonista questiona sua própria identidade em um mundo decadente

Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em 1995, Mamoru Oshii provavelmente não imaginava o clássico que estava criando ao adaptar o mangá Ghost in the Shell. O filme surge como uma autópsia do humano em meio ao ruído de máquinas, uma obra que não se contenta em exibir futurismo, mas escava o que resta de nós quando a tecnologia devora a carne. Ela opera como um vírus: infecta o espectador com perguntas que não se calam. Motoko Kusanagi, protagonista cibernética da Unidade 9, é uma incógnita ambulante.

Oshii constrói uma Nova Porto City que respira decadência. Não se trata de um cenário estático, mas de um organismo em decomposição, onde prédios colapsam sob o peso da obsolescência e corpos sintéticos brilham entre becos úmidos. A câmera desliza por canais poluídos e ruas superlotadas, revelando uma topografia que espelha a fragmentação interna de Kusanagi. Seu corpo perfeito, nu e mecânico, é exibido sem voyeurismo: a nudez aqui não seduz, e sim desnuda de forma sublime. Cada circuito exposto questiona a validade de um “eu” que habita um invólucro substituível.

O ponto alto do filme reside no diálogo entre Kusanagi e o Puppet Master, entidade nascida do caos das redes. Enquanto a primeira duvida de sua humanidade, o segundo anseia por transcendê-la. A fusão proposta não é mero plot twist; é um salto ontológico. Oshii, com precisão cirúrgica, invoca o paradoxo do Navio de Teseu: se cada parte de Kusanagi é substituída, o que a torna ela? E se sua consciência migrar para outro corpo, carregando memórias e desejos, continuará sendo a mesma pessoa? O filme não responde, mas faz uma reflexão belíssima.

A ação, quando explode, é coreografada como um balé de violência. A cena da perseguição no mercado, com camuflagens termo-ópticas que distorcem o ar, não serve apenas ao espetáculo. Cada movimento de Kusanagi — ágil, calculista, quase desumana — reforça sua desconexão do orgânico. O confronto final contra o tanque multipedal não glorifica o combate; é um ritual de autodestruição. Ao arrancar o próprio braço para penetrar a blindagem, ela não demonstra coragem, mas desespero: uma tentativa de sentir algo, mesmo que seja dor.

A trilha sonora de Kenji Kawai merece menção como personagem silenciosa. Seus corais em búlgaro antigo e percussões minimalistas não ambientam, assombram. A música não acompanha a narrativa — a invade, como um código malicioso que corrói a barreira entre o real e o virtual. É perturbadoramente belo, como deve ser qualquer representação do sublime tecnológico.

Críticas? Oshii sacrifica o humor e a pluralidade do mangá original em nome de uma atmosfera claustrofóbica, melancolicamente sufocante. Personagens secundários da Unidade 9 são reduzidos a figurantes, e o ritmo pode parecer glacial para espectadores acostumados ao frenetismo de Akira. Mas essa ascese narrativa é intencional. Ao podar elementos que poderiam distrair o espectador, o diretor força o olhar para o essencial: a solidão de existir em um corpo que nunca será totalmente seu.

Quase três décadas depois, Ghost in the Shell permanece relevante não por prever gadgets, mas por antever dilemas. Em uma era de inteligências artificiais que escrevem poemas e deepfakes que roubam rostos, a obra de Oshii permanece contemporânea. O filme não é sobre o perigo das máquinas, mas sobre nosso desejo mórbido de nos tornarmos uma delas. Kusanagi, ao fundir-se com o Puppet Master, não encontra paz. E nós, espectadores, saímos do filme olhando para nossas mãos, perguntando o quanto de carne ainda resta nelas.


“Ghost in the Shell”, Mamoru Oshii

Disponível no MUBI

Avaliação: 5 de 5.
Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em 1995, Mamoru Oshii provavelmente não imaginava o clássico que estava criando ao adaptar o mangá Ghost in the Shell. O filme surge como uma autópsia do humano em meio ao ruído de máquinas, uma obra que não se contenta em exibir futurismo, mas escava o que resta de nós quando a tecnologia devora a carne. Ela opera como um vírus: infecta o espectador com perguntas que não se calam. Motoko Kusanagi, protagonista cibernética da Unidade 9, é uma incógnita ambulante.

Oshii constrói uma Nova Porto City que respira decadência. Não se trata de um cenário estático, mas de um organismo em decomposição, onde prédios colapsam sob o peso da obsolescência e corpos sintéticos brilham entre becos úmidos. A câmera desliza por canais poluídos e ruas superlotadas, revelando uma topografia que espelha a fragmentação interna de Kusanagi. Seu corpo perfeito, nu e mecânico, é exibido sem voyeurismo: a nudez aqui não seduz, e sim desnuda de forma sublime. Cada circuito exposto questiona a validade de um “eu” que habita um invólucro substituível.

O ponto alto do filme reside no diálogo entre Kusanagi e o Puppet Master, entidade nascida do caos das redes. Enquanto a primeira duvida de sua humanidade, o segundo anseia por transcendê-la. A fusão proposta não é mero plot twist; é um salto ontológico. Oshii, com precisão cirúrgica, invoca o paradoxo do Navio de Teseu: se cada parte de Kusanagi é substituída, o que a torna ela? E se sua consciência migrar para outro corpo, carregando memórias e desejos, continuará sendo a mesma pessoa? O filme não responde, mas faz uma reflexão belíssima.

A ação, quando explode, é coreografada como um balé de violência. A cena da perseguição no mercado, com camuflagens termo-ópticas que distorcem o ar, não serve apenas ao espetáculo. Cada movimento de Kusanagi — ágil, calculista, quase desumana — reforça sua desconexão do orgânico. O confronto final contra o tanque multipedal não glorifica o combate; é um ritual de autodestruição. Ao arrancar o próprio braço para penetrar a blindagem, ela não demonstra coragem, mas desespero: uma tentativa de sentir algo, mesmo que seja dor.

A trilha sonora de Kenji Kawai merece menção como personagem silenciosa. Seus corais em búlgaro antigo e percussões minimalistas não ambientam, assombram. A música não acompanha a narrativa — a invade, como um código malicioso que corrói a barreira entre o real e o virtual. É perturbadoramente belo, como deve ser qualquer representação do sublime tecnológico.

Críticas? Oshii sacrifica o humor e a pluralidade do mangá original em nome de uma atmosfera claustrofóbica, melancolicamente sufocante. Personagens secundários da Unidade 9 são reduzidos a figurantes, e o ritmo pode parecer glacial para espectadores acostumados ao frenetismo de Akira. Mas essa ascese narrativa é intencional. Ao podar elementos que poderiam distrair o espectador, o diretor força o olhar para o essencial: a solidão de existir em um corpo que nunca será totalmente seu.

Quase três décadas depois, Ghost in the Shell permanece relevante não por prever gadgets, mas por antever dilemas. Em uma era de inteligências artificiais que escrevem poemas e deepfakes que roubam rostos, a obra de Oshii permanece contemporânea. O filme não é sobre o perigo das máquinas, mas sobre nosso desejo mórbido de nos tornarmos uma delas. Kusanagi, ao fundir-se com o Puppet Master, não encontra paz. E nós, espectadores, saímos do filme olhando para nossas mãos, perguntando o quanto de carne ainda resta nelas.


“Ghost in the Shell”, Mamoru Oshii

Disponível no MUBI

Avaliação: 5 de 5.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading