On the Go chega como um testemunho vibrante de corpos e afetos em desalinho, narrado sem amarras geográficas ou morais, mas com a convicção de quem sabe que a jornada interior tem ritmos próprios. A trama acompanha Milagros, DJ de voz rouca e vontade fértil, enquanto parte de Ávila rumo a Sevilha num Corvair de 1967. Ao seu lado, Jonathan aposta numa fuga intrigante: ex-condenado em busca de redenção e combustível sexual, oferece seu próprio corpo como recurso para a maternidade da amiga. E, atravessando esse par, surge uma figura efêmera e magnética, cuja presença estrangeira lança sobre a estrada um brilho iridescente e instável.
O filme foge da narrativa linear: fragmentos de cenas explodem uns nos outros, como conceitos que se chocam até encontrar alguma ressonância. A cada parada — um estábulo para uma orgia improvisada, um clube que arde em chama, uma pista de dança abalada por gritos de liberdade — somos convidados a decifrar o sentido oculto nos gestos. Essa estrutura lembra a ideia de devenir de Deleuze, em que o sujeito não é um ente fixo, mas um movimento contínuo de vir a ser; aqui, cada ato erótico ou criminoso desenha os contornos fluidos de identidades que não se deixam capturar.
Embora dure menos de uma hora e quinze, On the Go alcança profundidade ao explorar tensões entre desejo e opressão: a obsessão de Milagros pela maternidade remete ao paradoxo entre criar laços e manter a autonomia, enquanto a busca de Jonathan por perdão revela como o corpo pode carregar culpa e redenção. A estética 16 mm, com sua granulação quase palpável, confere ao filme um tom nostálgico, lembrando que todo instante é simultaneamente presente e memória. A paleta de cores se move entre ocres e vermelhos vivos, ressaltando tanto a paixão quanto o perigo que se oculta no ordinário.
A diretora Julia de Castro demonstra intimidade com o ritmo punk: cortes abruptos, enquadramentos oblíquos e passagens sonoras que misturam flamenco ancestral e guitarras distorcidas, reforçando a ideia de que tradição e revolta podem conviver num mesmo compasso. María Gisèle Royo, por sua vez, aporta o olhar documental, capturando espontaneidade e imperfeição em cada interação. Essa dupla de vozes cria uma sinfonia de caos e ternura.
On the Go celebra a incerteza e revela como o ato de mover-se — seja pela Andaluzia, seja pelo próprio desejo — já é modo de existir. Com originalidade e ímpeto filosófico, este road-movie sussurra que a vida, assim como o pensamento, precisa de estradas abertas para florescer.
“On the Go”, Julia de Castro e María Gisèle Royo
Stremio




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