Imagine acordar um dia e não encontrar mais seu rosto no espelho. Não como metáfora para crises existenciais, mas literalmente: os olhos estreitos, os lábios finos, a curva da mandíbula — tudo substituído por uma fisionomia estranha. É assim que começa El Rostro de la Medusa, de Melisa Liebenthal. Marina, interpretada por Rocío Stellato, desperta em um corpo que ainda é o seu, mas com um rosto que não reconhece. A mãe a encara com perplexidade distante, médicos oferecem placebos, e o Estado se recusa a atualizar seu documento de identidade. O filme, porém, não se perde em explicações científicas ou dramas melodramáticos. Liebenthal prefere mergulhar na ambiguidade: e se a perda do rosto não fosse uma tragédia, mas uma libertação?
A narrativa se desdobra em camadas sutis. Marina é professora, vive com a mãe, tem um namorado afetuoso — uma vida de rotinas previsíveis. A transformação física, no entanto, parece despertar nela uma curiosidade adormecida. Em uma cena crucial, ao ser questionada por um médico sobre seu parceiro colombiano, um brilho quase imperceptível surge em seus olhos. Há ali um vislumbre de possibilidade, como se o novo rosto fosse um disfarce que permite reinventar gestos, desejos, até mesmo a própria história. A diretora intercala esses momentos com sequências experimentais: padrões geométricos sobrepostos a rostos de animais, imagens de águas-vivas pulsantes, colagens digitais que lembram diagramas de reconhecimento facial. Essas intervenções visuais, longe de serem meros ornamentos, funcionam como um contraponto à narrativa principal. Enquanto Marina luta para atualizar suas redes sociais ou esconde-se atrás de máscaras, os animais no zoológico ou no aquário exibem rostos decodificados em linhas e polígonos — como se toda identidade, humana ou não, pudesse ser reduzida a algoritmos.
Liebenthal constrói uma crítica silenciosa à obsessão contemporânea por categorização. Num mundo onde existimos como dados — fotos filtradas, biometrias, métricas de engajamento —, Marina torna-se um paradoxo ambulante. Seu DNA permanece o mesmo, mas sem um rosto registrável, ela escorrega pelas brechas do sistema. A diretora evita didatismos, optando por uma abordagem fragmentada: cenas cotidianas são interrompidas por planos de câmeras de vigilância ou animações lo-fi que lembram vídeos de arquivo corrompidos. Essa estética desconjuntada reflete a própria experiência da protagonista, cuja identidade agora flutua entre o que foi e o que poderia ser.
Marina, ao perder seu rosto, escapa temporariamente dessa lógica. Se antes sua vida era um conjunto de hábitos previsíveis, o novo rosto — não mais legível pelas lentes do Estado ou das redes sociais — abre espaço para experimentações íntimas. Ela flerta com a ideia de usar máscaras, não para esconder-se, mas para performar outras versões de si. Liebenthal, aqui, é astuta: ao invés de explorar o horror da desfiguração, ela sugere que a liberdade talvez esteja na incapacidade de sermos fixados em categorias.
O experimentalismo do filme pode afastar espectadores ávidos por respostas. Não há clímax dramático, nem explicações sobre a metamorfose. A opção por um ritmo elíptico e imagens oníricas — como a repetição hipnótica de águas-vivas, seres sem rosto definido — reforça a sensação de desorientação. Em um momento particularmente inquietante, vemos arquivos antigos da própria diretora, Melisa Liebenthal. A fusão entre realidade e ficção não é acidental; questiona até que ponto nossas identidades são construções editáveis, tão plásticas quanto um rosto que desaparece de um dia para o outro.
El Rostro de la Medusa não é fácil de digerir. Sua narrativa recusa-se a seguir fórmulas, e a ausência de respostas pode frustrar. Liebenthal não está interessada em oferecer um tratado sobre identidade, mas em provocar um desconforto produtivo: como nos reconheceríamos se nossos rostos fossem apagados? A resposta, o filme sugere, talvez esteja menos no que vemos no espelho e mais no que escolhemos performar quando ninguém — nem mesmo os algoritmos — pode nos catalogar.
“El Rostro de la Medusa”, Melisa Liebenthal
MUBI




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