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Um encontro tímido quebra o isolamento cotidiano em “Às vezes penso em sumir”

Dirigido por Rachel Lambert, filme encontra na performance de Daisy Ridley e no silêncio da rotina um espaço para refletir sobre o tédio, a imaginação e o desejo de desaparecer sem barulho algum


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Fran trabalha em um escritório. Ela digita planilhas, aquece no micro-ondas algo marrom, que parece ter proteína, cobre com queijo cottage e come sem som. Volta a digitar. Às vezes é interrompida por colegas de trabalho — o tipo de gente que sabe conversar e ri quando alguém faz uma piada. Fran não sabe. Sorri tardiamente, diz pouco, responde baixo. Por quase vinte minutos de filme, ela não fala. E quando fala, diz só que gosta de queijo cottage. Isso basta para o filme de Rachel Lambert começar a fazer sentido, no modo como estrutura o mundo de Fran não por explicações, mas por camadas de gestos, interrupções, devaneios e contenções. Às vezes penso em sumir é um filme mínimo, mas não pequeno. Contido, mas não vazio. É sobre uma mulher que não deseja o fim, mas imagina a morte como quem pensa em férias: sozinha, no mato, entre insetos, inerte.

Daisy Ridley, mais conhecida por interpretar uma guerreira intergaláctica em Star Wars, está aqui no extremo oposto da exuberância. Sua Fran não está em conflito com ninguém. Ela não está apaixonada. Não está fugindo. Não quer resolver um passado. Ela apenas vive. E nisso reside parte do interesse do filme: a aposta de Rachel Lambert em acompanhar uma pessoa cuja vida não parece ter nada de especial — nem dramas notáveis, nem superações ou traumas expostos. Ela só é como é. E, talvez por isso, se torna tão instigante.

A direção evita fazer barulho. Não há picos dramáticos nem súbitas revelações. O que há é o tempo e a rotina, e a maneira como ambos pesam. Fran não está deprimida, mas vive como quem gostaria de ser esquecida. Em sua imaginação, vê-se morta em florestas, praias desertas, lugares onde ninguém a encontra. Não é ameaça nem lamento. É contemplação. Existe um tipo de prazer discreto nessa ideia: o mundo sem ela, funcionando sem a obrigação de responder perguntas ou justificar sua presença. Nesse sentido, o filme tangencia o conceito de tédio existencial proposto por Heidegger, não no sentido trivial, mas como esse sentimento fundamental que revela o ser no seu esvaziamento: quando tudo parece suspenso e sem direção, e mesmo assim segue.

A chegada de Robert — interpretado por Dave Merheje — é uma interrupção tênue, mas significativa. Ele é sociável, fala com ela, ri de algo que ela disse sem querer ser engraçada. Ele a convida para sair. Fran vai. Eles comem torta. Participam de um jogo. Ela fala. Parece algo, mas não vira algo. Nada explode. Nada muda de forma radical. O filme não premia Fran com uma cura ou transformação visível. Mas interrompe, de leve, aquele fluxo contínuo de invisibilidade que marcava sua vida. Não se trata de redenção, nem de amor, nem de superação. Trata-se apenas de presença. E isso, no universo inerte de Fran, é quase um acontecimento. O grande acerto do filme é fazer com que o espectador torça para que Fran permita ser conhecida por Robert.

A estética do filme acompanha essa lógica: planos fixos, poucos diálogos, trilha discreta, cenários que parecem estacionados no tempo. A casa de Fran tem uma mobília que poderia ter sido herdada, mas o filme nunca explica. As imagens da cidade, do céu nublado, das árvores e rios não são passagens de tempo, mas estados de espírito. A natureza aparece como parte da vida interior de Fran, como se sua mente projetasse paisagens enquanto o mundo exterior a ignora.

Rachel Lambert dirige com contenção e precisão. Seu cinema parece saber que mostrar demais é estragar o que é sutil. Ela confia no ritmo lento, nos silêncios, no desconforto das pausas. É raro encontrar um filme que respeite tanto a opacidade de uma personagem. O espectador não é levado pela mão. Fran não é desvendada. Isso exige paciência e atenção, mas há beleza nesse compromisso com a lentidão.

Há também um humor seco, que escapa pelas frestas. Quando Fran escreve um bilhete para uma colega que se aposenta, após hesitar por horas, seu recado é: “Feliz Aposentadoria, Fran”. Não se sabe se ela escreveu o próprio nome por engano ou se quis dizer exatamente isso. O filme não explica e funciona melhor assim.

Daisy Ridley evita os clichês do tipo “garota esquisita”. Não há tiques exagerados, nem traços caricatos. Ela interpreta uma mulher que parece não entender bem como se espera que ela se comporte. E por isso age como se tudo fosse excessivo: a conversa, o toque, o convite. Ridley mantém a personagem num estado quase mineral. Poucas expressões, mas sempre precisas. O que importa é o que ela não diz.

O filme poderia facilmente resvalar na caricatura indie de solidão fofa, mas se afasta disso com firmeza. Há algo de profundamente real em Fran. O modo como ela se descola do mundo, sem fazer alarde, é talvez um dos retratos mais honestos da experiência de estar só. E o mais curioso: ela não sofre exatamente por isso. Apenas vive com isso. E talvez, às vezes, pense em sumir. Mas só de leve. Como quem pensa em mudar de cidade, ou cortar o cabelo. Pensamentos que vêm e vão.


“Às vezes penso em sumir”, Rachel Lambert

MUBI

Avaliação: 5 de 5.

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