Em meio às cinzas fumegantes da crise econômica argentina de 2001, ‘A Tomada’ de Avi Lewis mergulha na audaciosa e inesperada resposta de operários desempregados que se recusam a aceitar a derrota. Com a falência de empresas e o abandono de centenas de fábricas por seus proprietários, milhares de trabalhadores optaram não pela resignação, mas pela autogestão, transformando espaços vazios em cooperativas operadas por eles mesmos.
O filme centra-se na emblemática Forja, uma fábrica de autopeças em Buenos Aires, onde 300 ex-funcionários desafiaram a lógica do capital e a propriedade privada. Lewis não apenas registra o desafio logístico de reativar a produção sem chefes ou hierarquias tradicionais, mas também a intrincada batalha legal e política que se desenrola, enfrentando o sistema judiciário, as forças policiais e a resistência dos antigos donos.
Mais do que um estudo de caso econômico, ‘A Tomada’ é um pungente retrato humano. É a história de famílias que se recusam a ser meras estatísticas de um sistema falido, de uma comunidade que redefine o significado de propriedade e trabalho em um esforço desesperado por dignidade e subsistência. O documentário expõe as tensões entre o direito à propriedade e a necessidade social, questionando as fundações do neoliberalismo e a própria essência da democracia econômica.
Sem pedantismo, a narrativa convida a uma reflexão profunda sobre as fissuras do capitalismo global e a viabilidade de modelos econômicos mais equitativos. É uma jornada visceral que revela a resiliência e a inventividade humana diante da adversidade, construindo uma alternativa do chão de fábrica. ‘A Tomada’ é uma narrativa urgente que ecoa para além das fronteiras argentinas, sugerindo que, talvez, a verdadeira democracia comece não nos parlamentos, mas na capacidade de tomar as rédeas do próprio destino.
“A TOMADA” está disponível no MUBI.









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