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Filme: “A Morte de um Bookmaker Chinês” (1976), John Cassavetes

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No universo particular de John Cassavetes, Cosmo Vitelli, interpretado com uma vulnerabilidade magnética por Ben Gazzara, é menos um homem e mais um ato contínuo. Ele é o proprietário, mestre de cerimônias e figura paterna do Crazy Horse West, um clube de striptease em Los Angeles que funciona como seu reino pessoal, uma fantasia de segunda categoria mantida com esmero e uma dedicação quase patológica. Para Cosmo, o clube não é um negócio, é a manifestação de sua própria identidade; as dançarinas são suas “garotas”, o comediante de palco é seu protegido e cada noite é um espetáculo que ele dirige para um público que talvez nem exista. Essa frágil construção de dignidade e controle desmorona quando uma dívida de jogo de 23 mil dólares o coloca sob o jugo de gângsteres que não têm interesse em seu dinheiro. A quitação exigida é um serviço: o assassinato de um corretor de apostas chinês.

O que se desenrola a partir daí é uma subversão completa do filme de gângster. Cassavetes drena o gênero de todo o seu glamour, trocando a eficiência fria por uma ansiedade palpável e desajeitada. A preparação e execução do crime por Cosmo não têm a precisão de um profissional, mas a hesitação de um performer forçado a um papel que não ensaiou. Filmado com a crueza característica do diretor, o longa acompanha Vitelli por uma Los Angeles noturna, anônima e indiferente, um cenário que expõe a solidão de sua situação. A violência, quando chega, é desajeitada, anticlimática e terrivelmente real, deixando marcas físicas e psicológicas que Cosmo tenta desesperadamente esconder sob seu terno impecável e seu sorriso de anfitrião.

A Morte de um Bookmaker Chinês explora a colisão entre a persona que construímos e a realidade que nos é imposta. Toda a existência de Cosmo é uma encenação, do discurso motivacional para suas dançarinas à sua própria postura de homem no controle. Quando o mundo do crime invade seu palco, ele não abandona a performance; ele a intensifica. Sua luta para manter as luzes do clube acesas e o show funcionando, mesmo enquanto esconde uma ferida mortal, revela um código de honra pessoal, um estoicismo quase absurdo. Ele precisa manter sua criação intacta porque, sem ela, ele deixa de existir. É um estudo de personagem sobre a integridade, não no sentido moralista, mas como a necessidade de se manter inteiro, de preservar a própria ficção pessoal contra um mundo que insiste em quebrá-la. O filme não oferece catarse, mas sim o retrato persistente de um homem que, no fim, só queria apresentar um bom espetáculo.

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No universo particular de John Cassavetes, Cosmo Vitelli, interpretado com uma vulnerabilidade magnética por Ben Gazzara, é menos um homem e mais um ato contínuo. Ele é o proprietário, mestre de cerimônias e figura paterna do Crazy Horse West, um clube de striptease em Los Angeles que funciona como seu reino pessoal, uma fantasia de segunda categoria mantida com esmero e uma dedicação quase patológica. Para Cosmo, o clube não é um negócio, é a manifestação de sua própria identidade; as dançarinas são suas “garotas”, o comediante de palco é seu protegido e cada noite é um espetáculo que ele dirige para um público que talvez nem exista. Essa frágil construção de dignidade e controle desmorona quando uma dívida de jogo de 23 mil dólares o coloca sob o jugo de gângsteres que não têm interesse em seu dinheiro. A quitação exigida é um serviço: o assassinato de um corretor de apostas chinês.

O que se desenrola a partir daí é uma subversão completa do filme de gângster. Cassavetes drena o gênero de todo o seu glamour, trocando a eficiência fria por uma ansiedade palpável e desajeitada. A preparação e execução do crime por Cosmo não têm a precisão de um profissional, mas a hesitação de um performer forçado a um papel que não ensaiou. Filmado com a crueza característica do diretor, o longa acompanha Vitelli por uma Los Angeles noturna, anônima e indiferente, um cenário que expõe a solidão de sua situação. A violência, quando chega, é desajeitada, anticlimática e terrivelmente real, deixando marcas físicas e psicológicas que Cosmo tenta desesperadamente esconder sob seu terno impecável e seu sorriso de anfitrião.

A Morte de um Bookmaker Chinês explora a colisão entre a persona que construímos e a realidade que nos é imposta. Toda a existência de Cosmo é uma encenação, do discurso motivacional para suas dançarinas à sua própria postura de homem no controle. Quando o mundo do crime invade seu palco, ele não abandona a performance; ele a intensifica. Sua luta para manter as luzes do clube acesas e o show funcionando, mesmo enquanto esconde uma ferida mortal, revela um código de honra pessoal, um estoicismo quase absurdo. Ele precisa manter sua criação intacta porque, sem ela, ele deixa de existir. É um estudo de personagem sobre a integridade, não no sentido moralista, mas como a necessidade de se manter inteiro, de preservar a própria ficção pessoal contra um mundo que insiste em quebrá-la. O filme não oferece catarse, mas sim o retrato persistente de um homem que, no fim, só queria apresentar um bom espetáculo.

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