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Filme: “Os Esquecidos” (1950), Luis Buñuel

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Nas ruas poeirentas e nos terrenos baldios da Cidade do México, um grupo de adolescentes sobrevive na mais completa miséria, entre pequenos furtos e uma violência casual que se tornou a sua linguagem. A frágil dinâmica do grupo é alterada com o retorno do carismático e endurecido Jaibo, que escapa de um reformatório não para se redimir, mas para acertar contas. No centro da trama está Pedro, um garoto com um desejo latente por uma vida comum, mas que é arrastado para a órbita de Jaibo. O assassinato de um jovem, cometido por Jaibo com Pedro como testemunha acidental, sela o destino de ambos e desencadeia uma queda livre moral da qual parece não haver escapatória. Em Os Esquecidos, o diretor Luis Buñuel constrói uma narrativa crua sobre a juventude abandonada pela sociedade, um tema que o cinema mexicano exploraria, mas raramente com esta precisão cortante.

Buñuel recusa a piedade e o sentimentalismo, optando por uma observação quase clínica que funde a brutalidade documental do neorrealismo com incursões chocantes de surrealismo. Essa fusão é o que distingue a obra, transformando um estudo sociológico em algo mais perturbador. As famosas sequências oníricas, como o sonho em que a mãe de Pedro lhe oferece um pedaço de carne crua enquanto ri de seu sofrimento, não são meros artifícios estilísticos; são janelas para o inconsciente fraturado desses jovens, expondo medos e desejos que a realidade reprime. A câmera de Gabriel Figueroa captura a paisagem urbana com uma beleza austera, encontrando uma composição visual impactante na decadência e no abandono, sem romantizar a pobreza.

A obra desmonta a eficácia das instituições – a família ausente, o estado corretivo inoperante, a caridade superficial. O filme opera sob uma lógica de determinismo social quase implacável, onde o ambiente não apenas molda, mas parece selar a trajetória de cada indivíduo. Cada tentativa de Pedro para se alinhar a um código moral é sistematicamente punida, não por uma força maligna abstrata, mas pelas circunstâncias, pela desconfiança e pela brutalidade de seu próprio ecossistema. Buñuel não está interessado em encontrar culpados, mas em mapear as engrenagens de um sistema que produz e depois descarta suas próprias crianças. O resultado é um documento cinematográfico que não oferece consolo, apenas a apresentação contundente de uma realidade ignorada, cuja força reside na sua honestidade desconcertante.

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Nas ruas poeirentas e nos terrenos baldios da Cidade do México, um grupo de adolescentes sobrevive na mais completa miséria, entre pequenos furtos e uma violência casual que se tornou a sua linguagem. A frágil dinâmica do grupo é alterada com o retorno do carismático e endurecido Jaibo, que escapa de um reformatório não para se redimir, mas para acertar contas. No centro da trama está Pedro, um garoto com um desejo latente por uma vida comum, mas que é arrastado para a órbita de Jaibo. O assassinato de um jovem, cometido por Jaibo com Pedro como testemunha acidental, sela o destino de ambos e desencadeia uma queda livre moral da qual parece não haver escapatória. Em Os Esquecidos, o diretor Luis Buñuel constrói uma narrativa crua sobre a juventude abandonada pela sociedade, um tema que o cinema mexicano exploraria, mas raramente com esta precisão cortante.

Buñuel recusa a piedade e o sentimentalismo, optando por uma observação quase clínica que funde a brutalidade documental do neorrealismo com incursões chocantes de surrealismo. Essa fusão é o que distingue a obra, transformando um estudo sociológico em algo mais perturbador. As famosas sequências oníricas, como o sonho em que a mãe de Pedro lhe oferece um pedaço de carne crua enquanto ri de seu sofrimento, não são meros artifícios estilísticos; são janelas para o inconsciente fraturado desses jovens, expondo medos e desejos que a realidade reprime. A câmera de Gabriel Figueroa captura a paisagem urbana com uma beleza austera, encontrando uma composição visual impactante na decadência e no abandono, sem romantizar a pobreza.

A obra desmonta a eficácia das instituições – a família ausente, o estado corretivo inoperante, a caridade superficial. O filme opera sob uma lógica de determinismo social quase implacável, onde o ambiente não apenas molda, mas parece selar a trajetória de cada indivíduo. Cada tentativa de Pedro para se alinhar a um código moral é sistematicamente punida, não por uma força maligna abstrata, mas pelas circunstâncias, pela desconfiança e pela brutalidade de seu próprio ecossistema. Buñuel não está interessado em encontrar culpados, mas em mapear as engrenagens de um sistema que produz e depois descarta suas próprias crianças. O resultado é um documento cinematográfico que não oferece consolo, apenas a apresentação contundente de uma realidade ignorada, cuja força reside na sua honestidade desconcertante.

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