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Filme: “Gerry” (2002), Gus Van Sant

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Em um desvio casual de uma trilha mal sinalizada, dois jovens, ambos atendendo pelo nome de Gerry, mergulham em uma imensidão desértica que progressivamente anula qualquer senso de direção ou propósito. Este é o ponto de partida de ‘Gerry’, o exercício cinematográfico com que Gus Van Sant se afastou deliberadamente das estruturas de Hollywood após o sucesso de ‘Gênio Indomável’. Com Matt Damon e Casey Affleck, que também coescreveram o roteiro, o filme acompanha a jornada aparentemente sem rumo de dois amigos cuja confiança mútua e sanidade são postas à prova não por um evento dramático, mas pela monotonia esmagadora e pela vastidão indiferente da paisagem.

A câmera de Gus Van Sant, operada com uma paciência glacial por Harris Savides, não se apressa. Planos-sequência acompanham os personagens em tempo quase real, transformando a caminhada em uma experiência física para o espectador, onde o som do vento e dos passos sobre a terra seca compõem a principal trilha sonora. O diálogo, quando surge, é uma colagem de trivialidades e non-sequiturs, uma frágil tentativa humana de preencher o silêncio opressor da natureza. Aqui, a obra flerta com o absurdo existencial: a busca incessante por um caminho, um significado ou uma solução dentro de um universo que permanece mudo e indiferente às suas vontades. A caminhada não é uma jornada para algum lugar, mas um movimento contínuo que apenas confirma o estado de perdição.

‘Gerry’ opera em um registro que contorna as convenções do cinema de sobrevivência. A angústia é cumulativa, construída a partir da repetição dos passos, da paisagem imutável e do gradual esgotamento físico e mental. A dinâmica entre os dois homens, interpretados com uma naturalidade desconcertante por Damon e Affleck, se desloca da camaradagem para uma dependência silenciosa e, por fim, primal. O desfecho da jornada é tão pragmático e desprovido de sentimentalismo quanto a própria paisagem, um ato final que cimenta a posição do filme como um estudo clínico sobre a fragilidade humana quando todas as construções sociais são removidas e resta apenas o corpo no espaço.

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Em um desvio casual de uma trilha mal sinalizada, dois jovens, ambos atendendo pelo nome de Gerry, mergulham em uma imensidão desértica que progressivamente anula qualquer senso de direção ou propósito. Este é o ponto de partida de ‘Gerry’, o exercício cinematográfico com que Gus Van Sant se afastou deliberadamente das estruturas de Hollywood após o sucesso de ‘Gênio Indomável’. Com Matt Damon e Casey Affleck, que também coescreveram o roteiro, o filme acompanha a jornada aparentemente sem rumo de dois amigos cuja confiança mútua e sanidade são postas à prova não por um evento dramático, mas pela monotonia esmagadora e pela vastidão indiferente da paisagem.

A câmera de Gus Van Sant, operada com uma paciência glacial por Harris Savides, não se apressa. Planos-sequência acompanham os personagens em tempo quase real, transformando a caminhada em uma experiência física para o espectador, onde o som do vento e dos passos sobre a terra seca compõem a principal trilha sonora. O diálogo, quando surge, é uma colagem de trivialidades e non-sequiturs, uma frágil tentativa humana de preencher o silêncio opressor da natureza. Aqui, a obra flerta com o absurdo existencial: a busca incessante por um caminho, um significado ou uma solução dentro de um universo que permanece mudo e indiferente às suas vontades. A caminhada não é uma jornada para algum lugar, mas um movimento contínuo que apenas confirma o estado de perdição.

‘Gerry’ opera em um registro que contorna as convenções do cinema de sobrevivência. A angústia é cumulativa, construída a partir da repetição dos passos, da paisagem imutável e do gradual esgotamento físico e mental. A dinâmica entre os dois homens, interpretados com uma naturalidade desconcertante por Damon e Affleck, se desloca da camaradagem para uma dependência silenciosa e, por fim, primal. O desfecho da jornada é tão pragmático e desprovido de sentimentalismo quanto a própria paisagem, um ato final que cimenta a posição do filme como um estudo clínico sobre a fragilidade humana quando todas as construções sociais são removidas e resta apenas o corpo no espaço.

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