Bernard Queysanne entrega com ‘The Man Who Sleeps’ (‘Un Homme qui Dort’) uma incursão cinematográfica na ausência. O filme centra-se na jornada interna de um estudante parisiense que, subitamente, opta por uma greve total de sua própria existência. Ele não se manifesta, não reage, não interage. Transforma-se em um observador passivo de sua própria vida, habitando seu apartamento, as ruas de Paris e os espaços cotidianos com uma indiferença quase patológica.
A narrativa é conduzida pela voz feminina de Ludmila Mikaël, que verbaliza os pensamentos do protagonista – ou a ausência deles –, tecendo um monólogo interior sobre a inércia, o desapego e a progressiva anestesia emocional. Não há diálogos externos, apenas a cadência hipnótica dessa voz que ecoa a frieza do distanciamento. A obra, adaptada do romance homônimo de Georges Perec, se desdobra como um estudo de caso sobre a alienação urbana e a anomia existencial, onde a recusa em participar torna-se a única forma de presença. Queysanne habilmente emprega uma estética que favorece o detalhe mundano, a repetição e o vazio, transformando os espaços urbanos – metrôs, ruas, cafés – em cenários de uma quietude perturbadora.
É uma experiência cinematográfica que privilegia a imersão na psique de um indivíduo que decide flutuar à margem da realidade, uma exploração da autodeterminação levada ao extremo do ostracismo voluntário. ‘The Man Who Sleeps’ não se presta a conclusões óbvias, mas provoca uma meditação sobre o peso da escolha, mesmo a escolha de não escolher. A direção de Queysanne é precisa, evitando floreios dramáticos para manter o foco na austeridade emocional do personagem central. O filme constrói seu impacto a partir da simplicidade radical de sua premissa, convidando o espectador a confrontar o silêncio e o vazio como estados válidos de ser. É uma peça singular do cinema francês que mantém sua relevância como comentário sobre o isolamento contemporâneo e a busca, ou a fuga, de significado.









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