Em “Selfie,” Agostino Ferrente troca a frieza das câmeras de segurança pela intimidade vulnerável dos smartphones para tecer um retrato multifacetado da Nápoles contemporânea. Alessandro e Pietro, dois adolescentes do problemático bairro de Traiano, empunham seus celulares como ferramentas de autodescoberta e de registro de um cotidiano marcado pela ausência e pela violência. A câmera, antes intrusa, torna-se extensão de seus corpos, um escudo e um microfone.
O filme se distancia da representação sensacionalista frequentemente associada às periferias italianas. Ao invés de impor uma narrativa externa, Ferrente entrega o controle da imagem aos próprios protagonistas, concedendo-lhes a liberdade de definir seus próprios termos. A estética é crua, espontânea, por vezes caótica, refletindo a complexidade de suas vidas e a urgência de suas vozes. Através de selfies e vídeos caseiros, Alessandro e Pietro compartilham seus medos, sonhos, reflexões sobre amizade, família e o peso da criminalidade que paira sobre suas cabeças.
A abordagem de Ferrente evoca, ainda que indiretamente, o conceito de “estar-no-mundo” de Heidegger. Os garotos, imersos em sua realidade particular, buscam um sentido, uma forma de existir autenticamente em um ambiente que constantemente os confronta com a finitude. A câmera, nesse contexto, não é apenas um instrumento de gravação, mas um meio de autoafirmação, uma tentativa de deixar sua marca no tempo e no espaço, mesmo que seja através de breves vídeos compartilhados na internet. “Selfie” é, portanto, um estudo sobre a juventude marginalizada, sobre a busca por identidade e sobre o poder da imagem como forma de expressão e de conexão em um mundo cada vez mais fragmentado. É um filme que pulsa com a vitalidade e a fragilidade da vida, um documento honesto e, acima de tudo, humano.









Deixe uma resposta