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Filme: “Tootsie” (1982), Sydney Pollack

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No universo implacável do teatro nova-iorquino do início dos anos 80, Michael Dorsey é um ator talentoso com uma reputação tóxica. Sua dedicação ao método é tão intensa quanto sua inabilidade para colaborar, tornando-o persona non grata em cada palco e set de filmagem da cidade. Desesperado por trabalho e para financiar a peça de seu amigo Jeff, Dorsey concebe uma solução radical e absurda: ele faz um teste para um papel feminino em uma popular novela de televisão, “Southwest General”, e consegue. Nasce assim Dorothy Michaels, uma atriz de meia-idade, assertiva, de aparência peculiar e com uma perspicácia que rapidamente a transforma na nova estrela da América. A comédia de Sydney Pollack, ‘Tootsie’, parte dessa premissa engenhosa para explorar as complexidades da identidade, do poder e da percepção no competitivo ecossistema de Hollywood.

O filme desdobra suas camadas quando Michael, por baixo da peruca e do enchimento, se apaixona por sua colega de elenco, a doce e vulnerável Julie Nichols, interpretada por Jessica Lange. O problema é que Julie vê Dorothy como sua confidente, uma amiga com quem pode compartilhar suas inseguranças sobre homens como seu namorado, o diretor misógino do programa. A situação se complica ainda mais quando o pai viúvo de Julie se apaixona por Dorothy, e a própria Dorothy se torna um símbolo feminista para milhões de espectadoras, tudo enquanto Michael tenta manter sua identidade secreta. Aqui, a máxima de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas torna-se uma, encontra uma aplicação literal e cômica. Ao performar a feminilidade para sobreviver profissionalmente, Michael Dorsey é forçado a vivenciar o sexismo e as dinâmicas de poder que ele, como homem, nunca havia percebido. Sua criação, Dorothy, acaba por ensiná-lo a ser um homem melhor.

Pollack dirige o filme com uma mão firme, ancorando a farsa em um realismo palpável que torna o roteiro de Larry Gelbart e Murray Schisgal ainda mais eficaz. A atuação de Dustin Hoffman é um estudo de caso sobre dualidade; ele não constrói uma caricatura, mas duas pessoas distintas que habitam o mesmo corpo, cada uma com seus próprios maneirismos, cadência vocal e visão de mundo. O roteiro é uma peça de relojoaria, com cada piada e situação pagando dividendos mais tarde, notavelmente nas contribuições improvisadas de um jovem Bill Murray como o colega de quarto de Michael, cuja reação impassível à transformação de seu amigo serve como a âncora cômica da narrativa.

‘Tootsie’ funciona como uma comédia de erros de alto calibre, mas sua ressonância vem de sua análise afiada sobre como os papéis que desempenhamos, tanto na tela quanto fora dela, moldam quem somos. O filme examina como a empatia pode ser uma consequência inesperada do engano. Michael Dorsey inicia sua jornada por egoísmo e desespero, mas a experiência de ser Dorothy o força a confrontar as limitações de sua própria perspectiva. A grande piada, e a verdade central do filme, é que ele só se tornou um sucesso interpretando uma mulher, descobrindo no processo as verdades que sua arrogância masculina sempre o impediu de ver.

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No universo implacável do teatro nova-iorquino do início dos anos 80, Michael Dorsey é um ator talentoso com uma reputação tóxica. Sua dedicação ao método é tão intensa quanto sua inabilidade para colaborar, tornando-o persona non grata em cada palco e set de filmagem da cidade. Desesperado por trabalho e para financiar a peça de seu amigo Jeff, Dorsey concebe uma solução radical e absurda: ele faz um teste para um papel feminino em uma popular novela de televisão, “Southwest General”, e consegue. Nasce assim Dorothy Michaels, uma atriz de meia-idade, assertiva, de aparência peculiar e com uma perspicácia que rapidamente a transforma na nova estrela da América. A comédia de Sydney Pollack, ‘Tootsie’, parte dessa premissa engenhosa para explorar as complexidades da identidade, do poder e da percepção no competitivo ecossistema de Hollywood.

O filme desdobra suas camadas quando Michael, por baixo da peruca e do enchimento, se apaixona por sua colega de elenco, a doce e vulnerável Julie Nichols, interpretada por Jessica Lange. O problema é que Julie vê Dorothy como sua confidente, uma amiga com quem pode compartilhar suas inseguranças sobre homens como seu namorado, o diretor misógino do programa. A situação se complica ainda mais quando o pai viúvo de Julie se apaixona por Dorothy, e a própria Dorothy se torna um símbolo feminista para milhões de espectadoras, tudo enquanto Michael tenta manter sua identidade secreta. Aqui, a máxima de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas torna-se uma, encontra uma aplicação literal e cômica. Ao performar a feminilidade para sobreviver profissionalmente, Michael Dorsey é forçado a vivenciar o sexismo e as dinâmicas de poder que ele, como homem, nunca havia percebido. Sua criação, Dorothy, acaba por ensiná-lo a ser um homem melhor.

Pollack dirige o filme com uma mão firme, ancorando a farsa em um realismo palpável que torna o roteiro de Larry Gelbart e Murray Schisgal ainda mais eficaz. A atuação de Dustin Hoffman é um estudo de caso sobre dualidade; ele não constrói uma caricatura, mas duas pessoas distintas que habitam o mesmo corpo, cada uma com seus próprios maneirismos, cadência vocal e visão de mundo. O roteiro é uma peça de relojoaria, com cada piada e situação pagando dividendos mais tarde, notavelmente nas contribuições improvisadas de um jovem Bill Murray como o colega de quarto de Michael, cuja reação impassível à transformação de seu amigo serve como a âncora cômica da narrativa.

‘Tootsie’ funciona como uma comédia de erros de alto calibre, mas sua ressonância vem de sua análise afiada sobre como os papéis que desempenhamos, tanto na tela quanto fora dela, moldam quem somos. O filme examina como a empatia pode ser uma consequência inesperada do engano. Michael Dorsey inicia sua jornada por egoísmo e desespero, mas a experiência de ser Dorothy o força a confrontar as limitações de sua própria perspectiva. A grande piada, e a verdade central do filme, é que ele só se tornou um sucesso interpretando uma mulher, descobrindo no processo as verdades que sua arrogância masculina sempre o impediu de ver.

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