Numa América que celebra o indivíduo, John Sims chega ao mundo em 4 de julho de 1900, com a promessa paterna de um futuro extraordinário. Anos depois, ele é apenas mais um chapéu-coco a caminho de um arranha-céu em Nova Iorque, um rosto anônimo que se dissolve numa paisagem humana vertiginosa. Em ‘A Multidão’, o diretor King Vidor filma não a ascensão de um homem, mas a sua absorção pela massa. A famosa cena do escritório, com sua geometria de mesas que se estende ao infinito, estabelece desde o início o campo de batalha de John: um sistema impessoal onde a individualidade é uma anomalia estatística. Ele é o número 137 num mar de funcionários, e sua ambição de “ser alguém” colide frontalmente com a indiferença da metrópole.
A narrativa acompanha a vida comum de John com uma honestidade rara para o cinema de estúdio da época. Ele se apaixona por Mary, casa-se, e o casal enfrenta as pequenas alegrias e as grandes pressões da vida urbana num apartamento apertado. A dinâmica entre os dois é o coração emocional da obra, oscilando entre o afeto genuíno e a frustração causada pelas expectativas não cumpridas. A busca desesperada de John por uma centelha de distinção, simbolizada pela sua tentativa de criar um slogan publicitário vencedor, revela a fragilidade do seu otimismo. Vidor não se furta a mostrar os momentos de fracasso e a tragédia pessoal que testam os limites do casamento e da sanidade de seu protagonista, construindo um retrato cru da luta pela sobrevivência financeira e emocional.
O que torna ‘A Multidão’ uma obra tão potente é a forma como King Vidor utiliza a linguagem visual do cinema mudo para comentar a desumanização da era industrial. A câmera se move com uma fluidez impressionante, capturando tanto a intimidade claustrofóbica do lar quanto a escala esmagadora da cidade. A jornada de Sims pode ser lida à luz do conceito do “homem-massa”, mas de uma forma invertida: ele é o indivíduo que se recusa a aceitar a sua condição anônima, lutando contra a maré da mediocridade que o sistema parece impor. Produzido pela MGM no auge de seu glamour, o filme se destaca como um antídoto amargo para o otimismo fabricado de Hollywood, questionando a própria validade do sonho americano.
Ao final, quando encontramos John e Mary num teatro de Vaudeville, rindo em meio a centenas de outras pessoas, o filme atinge seu ponto mais complexo. A câmera se afasta, e o casal se torna, mais uma vez, parte indistinguível do todo. Não há uma conclusão simplista, mas sim uma observação cortante sobre a natureza da identidade dentro do coletivo. ‘A Multidão’ permanece como um dos documentos mais eloquentes sobre a experiência urbana do século XX, um estudo sobre a colisão entre a aspiração pessoal e a força niveladora da sociedade moderna, realizado com uma sofisticação técnica e uma profundidade temática que ainda impressionam.









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