Numa academia poeirenta de Stockton, Califórnia, os caminhos de dois homens se cruzam, definindo o tom de uma das explorações mais honestas e melancólicas do cinema americano sobre a ambição e o fracasso. Em Cidade das Ilusões, John Huston filma a história de Billy Tully, um pugilista em declínio interpretado com um cansaço palpável por Stacy Keach, que já conheceu dias melhores e agora sobrevive de biscates e álcool. Seu encontro com o jovem e promissor Ernie Munger, um Jeff Bridges no início de sua carreira, acende uma faísca. Tully vê no rapaz a sombra de seu próprio potencial perdido, enquanto Munger enxerga no veterano uma ponte precária para fora de uma vida a colher produtos agrícolas sob um sol implacável. O que se desenrola não é uma narrativa convencional de mentor e aprendiz, mas uma crônica crua sobre a transmissão de esperanças frágeis no circuito de boxe mais marginal da América.
Huston, um mestre em retratar homens em busca de empreitadas fúteis, constrói um universo de quartos de hotel baratos, bares onde a solidão é a bebida da casa e ginásios que cheiram a suor e desespero. A trajetória de Tully é ainda mais complicada pela sua relação com Oma, interpretada por Susan Tyrrell numa performance visceral de vulnerabilidade e autossabotagem, uma figura errática e codependente que ancora Tully ainda mais fundo na sua própria inércia. As lutas no ringue são quase secundárias; a verdadeira batalha é pela dignidade mínima, por conseguir dinheiro suficiente para a próxima refeição ou para mais uma noite num quarto alugado. A fotografia de Conrad Hall banha tudo numa luz desbotada e naturalista, que remove qualquer vestígio de glamour do desporto e da própria vida.
A estrutura narrativa de Cidade das Ilusões opera em ciclos paralelos de pequenas vitórias e derrotas inevitáveis, sugerindo que, neste estrato social, o sucesso de um muitas vezes não altera o panorama geral de estagnação. O filme investiga uma espécie de persistência absurda: a decisão de continuar a lutar sabendo que o prémio final é, na melhor das hipóteses, adiado e, na pior, inexistente. A obra de Huston recusa-se a oferecer catarses ou grandes lições. A sequência final, com Tully e Munger sentados num café após uma luta, partilhando um silêncio carregado e um café, encapsula a proposta do filme. Não há um ponto final, apenas uma vírgula; a admissão de que o ciclo de esforço e desapontamento recomeçará amanhã, com ou sem eles no centro do ringue, numa cidade que promete muito e entrega quase nada.




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