Num mundo onde o nível do mar sobe incessantemente, um velho solitário vive numa torre alta e estreita, o único resquício de uma cidade submersa. A sua rotina é um ciclo de resignação e construção: à medida que a água avança, ele adiciona um novo andar cúbico ao topo da sua casa, elevando a sua existência um pouco mais acima da maré. Um dia, enquanto pesca através de um alçapão no chão, ele deixa cair o seu cachimbo preferido. O objeto afunda, desaparecendo nos andares inferiores da sua própria morada. Após uma breve hesitação, ele veste um fato de mergulho e inicia uma descida através das camadas da sua vida, mergulhando literalmente no seu passado para recuperar um simples pertence.
A premiada curta-metragem de animação de Kunio Katô, ‘A Casa em Cubinhos’, transforma esta premissa simples numa exploração visual da memória e do tempo. Cada andar submerso que o protagonista atravessa não é apenas um espaço físico abandonado, mas um portal para uma época específica da sua vida. A animação revela, em vinhetas silenciosas e comoventes, a sua infância, o encontro com a sua futura esposa, o nascimento da filha, o casamento dela e, finalmente, a partida de todos, até ficar sozinho. A água que o isola do mundo também preserva o seu passado, transformando a sua casa numa estrutura arqueológica de afetos. A narrativa, desprovida de diálogos, confia inteiramente na força das suas imagens, que possuem uma textura de aguarela e um traço ligeiramente trémulo, como se as próprias memórias fossem desenhos a desvanecer.
O que a obra articula é uma tese visual sobre a natureza do tempo. Diferente de uma progressão linear, o tempo na animação de Katô é uma acumulação vertical, uma duração vivida onde o presente é apenas a camada mais recente construída sobre a totalidade do que já foi. A busca pelo cachimbo torna-se um pretexto para uma reconciliação com as perdas e com a beleza contida nelas. O design de som, minimalista e abafado, reforça a sensação de imersão, tanto literal quanto psicológica. No final, o ato de partilhar um copo de vinho com uma lembrança encapsula a ideia central: a solidão pode ser habitada pela riqueza de uma vida inteira, e o passado não é algo que se deixa para trás, mas algo sobre o qual continuamos a construir.




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