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Filme: “Dogma” (1999), Kevin Smith

Em algum lugar desolado de Wisconsin, dois anjos caídos, Loki e Bartleby, interpretados por Matt Damon e Ben Affleck, encontram uma brecha na teologia católica. Após milênios de exílio na Terra, um dogma recém-declarado por um cardeal progressista em Nova Jersey lhes oferece um caminho de volta para o Céu. A premissa é simples: ao…


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Em algum lugar desolado de Wisconsin, dois anjos caídos, Loki e Bartleby, interpretados por Matt Damon e Ben Affleck, encontram uma brecha na teologia católica. Após milênios de exílio na Terra, um dogma recém-declarado por um cardeal progressista em Nova Jersey lhes oferece um caminho de volta para o Céu. A premissa é simples: ao passar pelo arco de uma igreja em sua cerimônia de rededicação, todos os pecados são perdoados. Se eles conseguirem, provarão que Deus pode errar, um paradoxo que desfiaria o próprio tecido da existência. A aniquilação total, portanto, não viria de uma explosão de fogo, mas de uma peculiaridade burocrática explorada por dois seres celestiais entediados e ressentidos. Kevin Smith estabelece aqui um apocalipse movido não pela ira divina, mas pela lógica falha da religião institucionalizada.

A tarefa de impedir o fim de tudo recai sobre Bethany Sloane, uma funcionária de uma clínica de aborto em Illinois cuja relação com Deus se resume a uma amarga indiferença. Sua linhagem, no entanto, a torna a última descendente da família de Cristo, uma revelação entregue a ela por Metatron, a voz de Deus, encarnado com a secura característica de Alan Rickman. Para sua missão, ela é acompanhada por uma comitiva improvável: Rufus, o décimo terceiro apóstolo esquecido dos evangelhos por ser negro; Serendipity, uma musa que trabalha como stripper para se sustentar na Terra; e os profetas relutantes Jay e Silent Bob, cuja presença conecta esta aventura teológica ao universo mais terreno de Smith. Juntos, eles embarcam em uma viagem para impedir que os anjos cheguem à igreja, transformando a narrativa em um road movie sobre a salvação do universo.

O filme utiliza essa estrutura de jornada para realizar uma análise cortante da diferença entre fé e religião. A crítica não se dirige à crença em si, mas às estruturas dogmáticas criadas pelos homens para interpretá-la e controlá-la. O argumento central, de que a infalibilidade de Deus pode ser desfeita por uma brecha na lógica humana, flerta com um certo absurdo existencial: a busca por sentido num universo cujas regras, outrora absolutas, se mostram perigosamente maleáveis. A jornada de Bethany não é sobre restaurar uma fé cega, mas sobre encontrar uma agência pessoal em meio ao caos cósmico, onde anjos questionam seus papéis, demônios negociam como executivos e a salvação depende de uma mulher que parou de acreditar em respostas fáceis há muito tempo.

Smith equilibra um roteiro denso em diálogos e conceitos teológicos com um humor escatológico e referências à cultura pop, criando uma obra singular que se recusa a ser categorizada de forma simples. A irreverência de um demônio feito de excrementos ou a aparição de Deus na forma de Alanis Morissette convivem com discussões genuínas sobre o propósito do sofrimento e a natureza da graça. Dogma é um produto de seu tempo, um olhar audacioso e por vezes desajeitado sobre questões eternas, filtrado pela sensibilidade da Geração X. É uma comédia satírica que usa o absurdo para investigar o sagrado, sugerindo que talvez as ideias mais importantes sejam aquelas robustas o suficiente para sobreviver a uma boa piada.


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