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Filme: “Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins” (1994), Isao Takahata

Nos arredores de uma Tóquio em expansão acelerada, uma comunidade de tanukis, os guaxinins metamorfos do folclore japonês, vê seu habitat desaparecer sob o avanço implacável das escavadeiras. Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins, de Isao Takahata, documenta a saga tragicômica desses seres para salvar seu lar. A narrativa, apresentada com a cadência de…


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Nos arredores de uma Tóquio em expansão acelerada, uma comunidade de tanukis, os guaxinins metamorfos do folclore japonês, vê seu habitat desaparecer sob o avanço implacável das escavadeiras. Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins, de Isao Takahata, documenta a saga tragicômica desses seres para salvar seu lar. A narrativa, apresentada com a cadência de uma crônica histórica, acompanha a decisão dos tanukis de reviver suas antigas artes de transformação para assombrar e afugentar os humanos. A animação do Studio Ghibli se desdobra não como uma fantasia convencional, mas como um registro de uma cultura em vias de extinção, onde a magia é a última ferramenta de um povo desesperado.

A estratégia dos tanukis é uma mistura de tática de guerrilha com performance artística. Eles organizam espetaculares desfiles de fantasmas e monstros, conhecidos como Hyakki Yagyō, numa tentativa grandiosa de reintroduzir o medo do sobrenatural no mundo moderno e cético dos humanos. Contudo, o filme de Takahata não se prende a uma visão unificada dessa luta. Ele expõe as fissuras dentro da própria comunidade: os mestres anciões que dominam a metamorfose, os jovens impulsivos e prontos para o confronto direto, e aqueles que, por preguiça ou pragmatismo, consideram a assimilação como a única saída viável. Essa dinâmica interna confere uma camada de complexidade à história, mostrando que a resposta a uma crise existencial raramente é unânime.

O que eleva a obra é a sua recusa em oferecer consolo. Takahata utiliza o humor visual, muitas vezes escatológico e sempre enraizado na mitologia dos tanukis, para mascarar um pessimismo profundo. Cada pequena vitória dos guaxinins é seguida por uma constatação amarga: o progresso humano é uma força indiferente, que transforma suas florestas em concreto e suas assombrações em atrações de parques temáticos. A animação se aproxima do conceito de mono no aware, a sensibilidade para com a impermanência das coisas. A beleza do filme reside justamente na melancolia de observar a dissolução de um modo de vida, uma beleza que acompanha a inevitabilidade da perda.

Ao final, Pom Poko se firma como uma peça singular na filmografia do Studio Ghibli e de seu diretor. É um olhar sem sentimentalismo sobre o conflito entre natureza e desenvolvimento, e mais profundamente, sobre a memória e o esquecimento. A conclusão não celebra uma façanha, mas lamenta uma perda cultural e ecológica. Os tanukis sobreviventes se fragmentam, alguns aprendendo a viver como humanos, outros desaparecendo por completo, deixando para trás apenas a lembrança de um mundo onde as colinas eram povoadas por espíritos brincalhões e a magia era uma força palpável. O filme encerra com um apelo silencioso, uma imagem de um mundo que segue em frente, quase sem notar o que foi perdido.


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