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Filme: “Terror nas Trevas” (1981), Lucio Fulci

Uma herança envenenada na Louisiana é o ponto de partida para a jornada de Liza em Terror nas Trevas, a obra de Lucio Fulci que se estabelece como um dos pilares do horror cósmico italiano. Ao tomar posse de um antigo hotel decadente, a jovem nova-iorquina, interpretada por Catriona MacColl, espera iniciar um novo capítulo,…


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Uma herança envenenada na Louisiana é o ponto de partida para a jornada de Liza em Terror nas Trevas, a obra de Lucio Fulci que se estabelece como um dos pilares do horror cósmico italiano. Ao tomar posse de um antigo hotel decadente, a jovem nova-iorquina, interpretada por Catriona MacColl, espera iniciar um novo capítulo, mas os acidentes bizarros com os trabalhadores da reforma são apenas o prelúdio. Um pintor cai do andaime após ver uma figura fantasmagórica, um encanador tem o olho perfurado no porão inundado. Esses eventos não são pistas de um mistério a ser solucionado, mas sintomas de uma realidade que começa a se decompor, um processo iniciado décadas antes com o linchamento de um artista chamado Schweick, acusado de bruxaria naquele mesmo local.

O filme rapidamente abandona a estrutura de uma história de casa assombrada convencional. A lógica narrativa se desintegra à medida que Liza encontra Emily, uma mulher cega com um cão-guia que parece enxergar mais do que os vivos. É Emily quem a alerta sobre o hotel ser um dos Sete Portões do Inferno, uma passagem guardada por segredos contidos no antigo Livro de Eibon. A partir daí, a obra de Fulci se torna uma sucessão de vinhetas de horror visceral, cada uma mais desconectada e surreal que a anterior. Tarântulas devoradoras, cabeças que explodem, ácido que derrete rostos e os icônicos ferimentos oculares se tornam a linguagem principal do filme. A trama não avança em linha reta; ela se expande em uma espiral de loucura e violência que contamina todos que entram em contato com o hotel, culminando em um cerco hospitalar por mortos-vivos que parece surgir do nada, sem qualquer explicação diegética.

O que Fulci constrói aqui é um exercício sobre a futilidade da ação humana diante do incompreensível. A narrativa se desfaz em uma sucessão de eventos que operam fora da causalidade, ecoando uma sensibilidade do absurdo, onde as tentativas dos personagens de entender ou combater o mal são inúteis. Suas ações não têm peso ou consequência em um universo indiferente à sua existência. O gore explícito, longe de ser gratuito, funciona como a manifestação física dessa quebra de ordem; se a lógica pode ruir, o corpo humano também pode, de formas grotescas e inesperadas. A direção de Fulci é precisa na criação de uma atmosfera onírica e febril, onde a fronteira entre o real e o pesadelo se apaga completamente.

O clímax não oferece catarse ou resolução. A fuga final de Liza e do Dr. John McCabe não leva à segurança, mas a uma paisagem árida e cinzenta, idêntica à pintura de Schweick que assombrava a trama desde o início. Eles se tornam figuras cegas em seu próprio quadro infernal, aprisionados em um loop visual e temático. Terror nas Trevas, ou L’aldilà em seu título original, se afirma não pela sua coerência narrativa, mas pela sua poderosa e inabalável visão de um cosmos hostil. O Além não é um lugar para onde se vai, mas a condição final onde a percepção, a esperança e a própria realidade são irrevogavelmente dissolvidas.


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