Em 22 de dezembro de 1989, a Romênia vivenciava um dos dias mais cruciais de sua história, com a queda do regime de Nicolae Ceaușescu. Mas, para uma pequena e pacata cidade do interior, a participação nesse evento monumental é, no mínimo, nebulosa. É exatamente essa lacuna na memória coletiva que Corneliu Porumboiu investiga com precisão cirúrgica em “12:08 Leste de Bucareste”, uma obra que transita entre a comédia de costumes e uma aguda análise sociopolítica.
O filme se centra em Jderescu, o ambicioso e um tanto desajeitado proprietário de uma modesta TV local. Para celebrar o aniversário da Revolução Romena, ele decide montar um programa especial ao vivo, onde convida dois supostos “revolucionários” da cidade: o professor de história Piscoci e o Sr. Ciomu, um homem que guarda certa reputação por ser o bebedor local. A premissa é simples: descobrir se alguém, de fato, se manifestou na praça principal da cidade antes das 12:08, o momento exato em que Ceaușescu fugiu de Bucareste. A partir dessa linha divisória, a participação popular se transformaria de um ato corajoso de sublevação em mera celebração oportunista.
O que se desenrola no ar não é um debate grandioso sobre liberdade ou opressão, mas uma desconstrução hilária e por vezes melancólica da memória histórica. A câmera de Porumboiu, paciente e observadora, captura as nuances das personalidades: a vaidade de Jderescu em sua tentativa de orquestrar a verdade, o pedantismo do professor que luta para enquadrar os fatos em uma narrativa acadêmica, e a divagação do Sr. Ciomu, cujas lembranças são tão fluidas quanto o álcool que consome. O humor emerge da trivialidade dos argumentos, das pequenas mesquinharias e da insistência em atribuir significados heroicos a eventos talvez banais.
A obra se aprofunda na questão da legitimidade histórica e na forma como comunidades constroem seu próprio passado. A busca por uma verdade “oficial” na televisão local expõe a fragilidade da lembrança individual e a performatividade inerente à construção de qualquer narrativa sobre o que realmente aconteceu. A Romênia pós-totalitária, aqui, é um palco onde cada um tenta justificar sua existência e seu papel em um capítulo decisivo, mesmo que esse papel tenha sido apenas o de um espectador. “12:08 Leste de Bucareste” é um estudo fascinante sobre a micro-história e as disputas por reconhecimento em um contexto de transição, revelando que, muitas vezes, o que se busca não é a verdade factual, mas sim a validação de uma versão particular dos eventos. É um exemplar notável do cinema romeno contemporâneo, pontuado por um timing cômico impecável e uma sagacidade incomum na abordagem de temas tão complexos.




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