“Dillinger Está Morto”, a peculiar fatia de existencialismo pop de Marco Ferreri, emerge como um estudo de caso de tédio burguês levado ao extremo. Marcello Mastroianni, no papel de Glauco, um designer de máscaras de gás, personifica a apatia. Ao retornar para casa em uma noite romana aparentemente normal, ele encontra sua esposa ausente e a geladeira repleta. A partir daí, o filme se transforma em um fluxo de consciência culinário-fetichista. Glauco cozinha, decora, encontra uma arma embrulhada em um jornal e, em uma reviravolta inesperada, a usa para pintar seu apartamento com respingos de tinta vermelha.
A narrativa, quase desprovida de diálogo, concentra-se na meticulosa repetição de tarefas domésticas e na crescente obsessão de Glauco pela arma. A figura do gangster americano John Dillinger, evocada pelo título e pela iconografia pop presente, paira como um fantasma da rebelião. Mas a transgressão de Glauco é sutil, quase imperceptível. Ele não busca a destruição, mas a resignação criativa.
O filme ecoa nuances do conceito de alienação de Marx, embora com uma leveza satírica. Glauco, imerso em seu trabalho repetitivo, encontra na transgressão banal um escape da opressão da vida moderna. Não há redenção, nem catarse. Apenas a aceitação silenciosa do absurdo. Ferreri nos oferece, não uma crítica mordaz, mas um retrato desconcertante de um homem que, confrontado com o vazio, escolhe preenchê-lo com a cor vermelha.




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