Em 1972, numa região isolada e remota das Filipinas, a vida de um pequeno vilarejo decorre ao ritmo da colheita e das crenças populares, aparentemente imune às agitações políticas que fermentam na capital. A rotina, no entanto, é subitamente fraturada por uma série de eventos inexplicáveis e sinistros. Lamentos estranhos ecoam da floresta durante a noite, vacas são encontradas selvaticamente mutiladas nos campos e casas incendeiam-se sem motivo aparente. Lav Diaz posiciona a sua câmera para observar esses acontecimentos com uma distância calculada, permitindo que a beleza natural da paisagem se torne o cenário de uma perturbação crescente e silenciosa.
À medida que o inexplicável se torna rotineiro, a estrutura social da comunidade começa a desintegrar-se. A desconfiança mútua corrói os laços de vizinhança, e as explicações para a violência alternam entre o sobrenatural e a acusação direta. O filme acompanha os destinos de figuras centrais que personificam essa dissolução: a curandeira que já não consegue decifrar os presságios, o jovem que documenta a decadência em seus poemas e a família que se prepara para abandonar tudo em busca de segurança na cidade. A narrativa não se apressa, dedicando tempo a cada gesto de desespero e a cada olhar de incompreensão, detalhando como o medo envenena as relações humanas a partir de dentro.
O que se desdobra lentamente na tela é mais do que uma crônica de eventos bizarros. É um estudo sobre como um estado de exceção se instala na psique coletiva antes mesmo de ser formalmente decretado. Os incidentes no vilarejo funcionam como um microcosmo do colapso nacional que se avizinha com a declaração da Lei Marcial por Ferdinand Marcos. A violência aparentemente sem sentido e a paranoia generalizada não são apenas prenúncios da tirania, mas a sua manifestação primordial no tecido social. A estética rigorosa de Diaz, com seu preto e branco de alto contraste e seus planos-sequência de duração extrema, serve a um propósito fundamental: forçar o espectador a habitar o tempo da angústia, a sentir o peso da espera e a testemunhar a lenta erosão do significado.
Do Que Vem Antes é um trabalho de arqueologia histórica e emocional, escavando as raízes de um trauma filipino para expor não as suas causas políticas diretas, mas as suas manifestações atmosféricas e psicológicas. O cinema de Lav Diaz mapeia os efeitos da opressão na alma de um povo, demonstrando como a brutalidade do poder se infiltra primeiro no cotidiano, nos campos e nas casas, muito antes de tomar de assalto as instituições. A obra investiga a anatomia do medo coletivo, operando como um ensaio visual sobre a forma como a história, com sua força avassaladora, é sentida primeiro como um sussurro na floresta e só muito depois como um decreto oficial.




Deixe uma resposta