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Filme: “Os Vivos e os Mortos” (1987), John Huston

Numa Dublin de 1904, a neve começa a cair sobre a cidade enquanto as irmãs Kate e Julia Morkan, auxiliadas pela sobrinha Mary Jane, preparam a sua tradicional festa de Epifania. O evento é um ponto fixo no calendário social, uma reunião de família e amigos onde a música, a dança e a comida abundante…


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Numa Dublin de 1904, a neve começa a cair sobre a cidade enquanto as irmãs Kate e Julia Morkan, auxiliadas pela sobrinha Mary Jane, preparam a sua tradicional festa de Epifania. O evento é um ponto fixo no calendário social, uma reunião de família e amigos onde a música, a dança e a comida abundante criam uma atmosfera de calorosa cordialidade. Entre os convidados estão o seu sobrinho preferido, o académico Gabriel Conroy, e a sua esposa, Gretta. Gabriel, encarregado do discurso da noite, navega pelo serão com uma mistura de afeto e uma ligeira condescendência, a sua segurança intelectual a mascarar ansiedades subtis sobre o seu lugar neste mundo de tradições que parece, a cada ano, um pouco mais frágil e anacrónico.

John Huston, na sua obra final, filma este encontro não como um drama de grandes confrontos, mas como um estudo de observação minucioso. A câmara move-se com a paciência de um convidado discreto, registando as conversas polidas, as piadas repetidas, as pequenas tensões sociais e os momentos de genuína ligação que pontuam a noite. Através destes detalhes, a festa revela-se um microcosmo da sociedade irlandesa da época: orgulhosa do seu passado, presa a rituais, mas assombrada por uma sensação de paralisia e pela melancolia de oportunidades perdidas. A celebração, embora viva, está impregnada pela presença dos ausentes, pelas memórias e pelas canções que evocam um tempo que já não existe.

O ponto de viragem acontece quando a festa termina. Ao descerem as escadas, Gretta fica imóvel, cativada por uma canção antiga, “The Lass of Aughrim”, que um dos convidados canta ao longe. A sua reação, um transe melancólico, intriga e perturba Gabriel. Mais tarde, na privacidade do seu quarto de hotel, ele espera um momento de intimidade, mas a pergunta sobre o motivo da sua tristeza desencadeia uma revelação inesperada. Gretta conta-lhe a história de Michael Furey, um jovem que amou na sua juventude e que, acredita ela, morreu por sua causa, ao esperá-la debaixo da chuva fria.

Esta confissão funciona como um golpe existencial para Gabriel. A história de Gretta não apenas abala o seu orgulho, mas desfaz a sua própria concepção de existência. Ele percebe que nunca sentiu uma paixão tão avassaladora e que a memória de um rapaz morto há muito tempo ocupa um lugar na alma da sua esposa que ele, o marido vivo e presente, jamais alcançou. É um momento de clareza devastadora, onde a distinção entre quem está vivo e quem está morto se torna turva. O testamento cinematográfico de Huston é uma obra de contenção e maturidade notáveis, uma adaptação fiel ao espírito de James Joyce que explora como o passado não é uma entidade separada, mas uma força ativa que molda e, por vezes, domina o presente. O filme encerra com a imagem da neve a cair por toda a Irlanda, um manto branco que une poeticamente todos, os que respiram e os que vivem apenas na memória.


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