Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Outubro” (1927), Grigori Aleksandrov, Sergei Eisenstein

Em 1927, o governo soviético encomendou a Sergei Eisenstein uma celebração cinematográfica para o décimo aniversário da Revolução de Outubro. O resultado, ‘Outubro’, é menos um filme e mais um evento sísmico na tela, uma reconstrução febril dos dez dias que redesenharam o mapa político do século XX. A narrativa mergulha diretamente no turbilhão de…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em 1927, o governo soviético encomendou a Sergei Eisenstein uma celebração cinematográfica para o décimo aniversário da Revolução de Outubro. O resultado, ‘Outubro’, é menos um filme e mais um evento sísmico na tela, uma reconstrução febril dos dez dias que redesenharam o mapa político do século XX. A narrativa mergulha diretamente no turbilhão de 1917 em Petrogrado, começando com a euforia da Revolução de Fevereiro e a derrubada da estátua do Czar, para logo depois dissecar a ineficácia do Governo Provisório, personificado na figura quase caricata de Alexander Kerensky. A trama avança não por meio de desenvolvimento de personagens, mas pelo ímpeto das massas, uma força coletiva anônima que se move em direção ao seu destino histórico, culminando na tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques.

O que define a obra não é sua fidelidade documental, mas a sua gramática visual revolucionária. Eisenstein abandona as convenções narrativas para implantar sua teoria da montagem intelectual. O filme opera por colisão de imagens: um pavão mecânico empertigado é justaposto à figura de Kerensky, criando uma metáfora instantânea sobre a vaidade do poder. Ídolos de diferentes culturas e religiões são cortados em rápida sucessão, uma manobra que questiona a própria ideia de divindade e autoridade. O método se assemelha a uma dialética hegeliana visual, onde a tese de uma imagem choca-se com a antítese de outra para gerar uma síntese conceitual na mente do espectador. O som é substituído por um ritmo percussivo de cortes, transformando a experiência em um argumento puramente cinemático, onde a edição é a verdadeira protagonista.

‘Outubro’ é um estudo de caso sobre a construção da memória. A famosa sequência da invasão do Palácio de Inverno, com sua escala e energia avassaladoras, tornou-se a imagem definitiva do evento, tão poderosa que frequentemente é confundida com filmagens reais, embora tenha sido inteiramente encenada. O filme, ele próprio vítima da história que narrava, teve cenas com Leon Trotsky expurgadas após sua queda política, um testemunho da fluidez da verdade sob regimes autoritários. No final, a produção de Eisenstein se revela menos como um registro histórico e mais como um manifesto sobre o poder do cinema. É uma demonstração contundente de como a sétima arte não apenas documenta a história, mas a inventa, moldando a percepção coletiva com a força de uma imagem bem articulada.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading