“O Velho e o Novo”, de Sergei Eisenstein e Grigori Aleksandrov, emerge como um documento fascinante de uma época de transformação radical na União Soviética. Longe de ser uma simples propaganda da coletivização, o filme oferece um retrato multifacetado da vida no campo, confrontando a tradição agrária com as promessas da modernização tecnológica. O filme centra-se na figura de Marfa Lapkina, uma camponesa que personifica a luta para superar a inércia e o ceticismo diante das mudanças propostas pelo regime.
A narrativa acompanha os esforços de Marfa para convencer seus vizinhos a adotarem práticas agrícolas mais eficientes, desde a utilização de tratores até a implementação de cooperativas. A câmera de Eisenstein captura a beleza austera da paisagem rural, mas também a dureza do trabalho manual e a desconfiança arraigada dos camponeses em relação ao desconhecido. O filme não romantiza a vida no campo, mas também não a caricaturiza. Ele apresenta um panorama complexo, onde a fé no progresso coexiste com o apego aos costumes ancestrais.
Eisenstein utiliza técnicas de montagem expressivas para criar um contraste entre o velho e o novo. As imagens de arados puxados por cavalos são justapostas às de tratores modernos, simbolizando a transição da agricultura artesanal para a mecanizada. A água, elemento essencial para a vida no campo, assume um papel central na narrativa. A busca por água potável e a construção de um sistema de irrigação tornam-se metáforas da sede por progresso e da necessidade de superar a escassez.
“O Velho e o Novo” não escapa às limitações da sua época. A idealização do coletivismo e a ausência de uma análise mais crítica das políticas do governo são evidentes. No entanto, o filme permanece relevante como um testemunho histórico e como uma obra de arte que explora a tensão entre tradição e modernidade. A narrativa, que apresenta a dialética hegeliana em ação, em que a tese (a velha forma de vida) se encontra com a antítese (a nova tecnologia), para gerar uma síntese que, em teoria, seria superior. Observar a progressão da tese para a síntese, mesmo que com um viés ideológico, é uma das grandes qualidades da obra.




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