Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Que Fiz Eu Para Merecer Isto?” (1984), Pedro Almodóvar

O Madrid de Pedro Almodóvar em “Que Fiz Eu Para Merecer Isto?” é um turbilhão de rotina doméstica e excentricidade urbana, centrado na figura de Gloria. Ela é uma dona de casa atolada num apartamento minúsculo de um conjunto habitacional, lidando com um marido taxista trapaceiro, uma sogra que se recusa a abandonar o passado…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

O Madrid de Pedro Almodóvar em “Que Fiz Eu Para Merecer Isto?” é um turbilhão de rotina doméstica e excentricidade urbana, centrado na figura de Gloria. Ela é uma dona de casa atolada num apartamento minúsculo de um conjunto habitacional, lidando com um marido taxista trapaceiro, uma sogra que se recusa a abandonar o passado e dois filhos que parecem ter abraçado a delinquência como vocação. A vida de Gloria é uma sequência de obrigações extenuantes, desde a limpeza obsessiva à tentativa de manter uma família à deriva, tudo isso enquanto lida com a indiferença alheia.

A obra mergulha na rotina exaustiva de Gloria, que subsiste à base de anfetaminas para suportar o peso do seu cotidiano. O diretor constrói um universo particular onde o absurdo e o mundano coexistem sem fricção. Vemos o filho mais novo de Gloria traficando drogas, o mais velho se prostituindo e o marido dela, um ex-cantor de copla, mais preocupado em reavivar um romance do passado. Ao lado, uma vizinha prostituta com um tigre de estimação e um idoso pedófilo complementam a galeria de personagens que habitam a periferia desta cidade caótica. A narrativa não se prende a explicações simplistas; ela posiciona o espectador num cenário onde a sobrevivência dita as regras e as escolhas são muitas vezes desesperadas.

Este filme, um dos primeiros grandes trabalhos de Pedro Almodóvar, propõe uma investigação particular sobre o conceito de merecimento no sofrimento cotidiano. A questão levantada no título não é uma súplica por piedade, mas uma observação perspicaz sobre a imprevisibilidade da existência e a aparente ausência de uma lógica causal para as adversidades. A desolação de Gloria não se configura como um lamento dramático, mas como uma constatação fria de uma realidade multifacetada, onde a comédia e a tragédia coexistem em uma dança incessante. Almodóvar oferece um vislumbre cru da vida na margem, onde os laços familiares se tornam tanto um fardo quanto um motivo para prosseguir. A obra é uma exploração da tenacidade humana diante do caos, uma observação da busca por algum controle num mundo que parece desprovido de ordem moral.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading