O Madrid de Pedro Almodóvar em “Que Fiz Eu Para Merecer Isto?” é um turbilhão de rotina doméstica e excentricidade urbana, centrado na figura de Gloria. Ela é uma dona de casa atolada num apartamento minúsculo de um conjunto habitacional, lidando com um marido taxista trapaceiro, uma sogra que se recusa a abandonar o passado e dois filhos que parecem ter abraçado a delinquência como vocação. A vida de Gloria é uma sequência de obrigações extenuantes, desde a limpeza obsessiva à tentativa de manter uma família à deriva, tudo isso enquanto lida com a indiferença alheia.
A obra mergulha na rotina exaustiva de Gloria, que subsiste à base de anfetaminas para suportar o peso do seu cotidiano. O diretor constrói um universo particular onde o absurdo e o mundano coexistem sem fricção. Vemos o filho mais novo de Gloria traficando drogas, o mais velho se prostituindo e o marido dela, um ex-cantor de copla, mais preocupado em reavivar um romance do passado. Ao lado, uma vizinha prostituta com um tigre de estimação e um idoso pedófilo complementam a galeria de personagens que habitam a periferia desta cidade caótica. A narrativa não se prende a explicações simplistas; ela posiciona o espectador num cenário onde a sobrevivência dita as regras e as escolhas são muitas vezes desesperadas.
Este filme, um dos primeiros grandes trabalhos de Pedro Almodóvar, propõe uma investigação particular sobre o conceito de merecimento no sofrimento cotidiano. A questão levantada no título não é uma súplica por piedade, mas uma observação perspicaz sobre a imprevisibilidade da existência e a aparente ausência de uma lógica causal para as adversidades. A desolação de Gloria não se configura como um lamento dramático, mas como uma constatação fria de uma realidade multifacetada, onde a comédia e a tragédia coexistem em uma dança incessante. Almodóvar oferece um vislumbre cru da vida na margem, onde os laços familiares se tornam tanto um fardo quanto um motivo para prosseguir. A obra é uma exploração da tenacidade humana diante do caos, uma observação da busca por algum controle num mundo que parece desprovido de ordem moral.




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