Terence Davies evoca memórias de infância em “The Long Day Closes”, um filme que se move como um sonho lúcido, capturando a essência da solidão infantil e a busca por consolo em um mundo repleto de contrastes. Ambientado em Liverpool, no início dos anos 50, acompanhamos Bud, um garoto sensível e introspectivo, enquanto navega pelas ruas da cidade, pela escola e pelo ambiente acolhedor, ainda que por vezes sufocante, do lar.
Longe de construir uma narrativa tradicional, Davies opta por uma colagem sensorial, onde fragmentos de conversas, canções populares da época, imagens vívidas e texturas evocativas se entrelaçam para recriar a percepção infantil do mundo. O filme mergulha na interioridade de Bud, expondo sua vulnerabilidade e seu anseio por conexão em um cenário onde a norma social impõe restrições emocionais, especialmente para um garoto sensível em um ambiente predominantemente masculino.
A casa, refúgio e prisão simultaneamente, pulsa com a presença amorosa da mãe e dos irmãos, mas também ecoa com as ausências e os silêncios que moldam a experiência de Bud. A escola, palco de humilhações e incompreensões, contrasta com o cinema local, um santuário onde a magia das telas oferece um escape temporário da realidade opressiva. “The Long Day Closes” não busca a linearidade de uma biografia, mas sim a recriação subjetiva de um tempo e um lugar, filtrados pela lente da memória afetiva. Ao fazer isso, Davies nos força a contemplar a natureza fugaz da experiência e como moldamos nossas identidades a partir dos pedaços dispersos de nosso passado. Uma reflexão sobre o tempo e a consciência, onde o passado não é simplesmente lembrado, mas ativamente reconstruído, dando forma ao nosso presente.




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