Numa viagem de trem que se desfaz em sonho febril, Snàporaz, a encarnação do homem italiano maduro interpretada por Marcello Mastroianni, desce numa estação deserta em perseguição a uma mulher enigmática. O que ele encontra não é um encontro romântico, mas a porta de entrada para um vasto hotel que sedia uma convenção feminista. Em A Cidade das Mulheres, Federico Fellini não constrói uma utopia ou uma distopia, mas um palco operático para as ansiedades, desejos e medos de seu protagonista, que se vê subitamente obsoleto e impotente. O congresso é um espetáculo grandioso e caótico, com mulheres em patins, palestras performáticas e uma energia coletiva que o repele e o fascina. Snàporaz vagueia por esse ambiente como um fantasma de uma era passada, um espectador perplexo diante de um mundo feminino que não precisa de sua validação ou presença.
A fuga de Snàporaz do hotel apenas o mergulha mais fundo em cenários que parecem brotar diretamente de seu subconsciente. Ele encontra refúgio na mansão de Katzone, um macho alfa que celebra seus dez mil casos amorosos com um arquivo audiovisual e monumentos fálicos. Este contraponto não oferece alívio, apenas apresenta outra faceta da mesma obsessão: o desejo masculino de catalogar, possuir e, finalmente, neutralizar o mistério feminino. A jornada de Snàporaz se torna uma descida por suas próprias memórias, desde a babá da infância até suas fantasias eróticas adolescentes, cada encontro servindo como um fragmento de como sua percepção sobre as mulheres foi construída ao longo da vida. O filme explora a noção de que, para seu protagonista, a mulher não existe como indivíduo, mas como uma coleção de arquétipos projetados pela sua própria mente.
Visualmente, Fellini está em seu auge, orquestrando um carnaval de imagens que mistura o grotesco, o belo e o absurdo. A obra funciona como uma autocrítica extravagante, usando Mastroianni, o eterno amante do cinema italiano, para desconstruir a figura do Don Juan, revelando sua fragilidade e confusão diante da mudança dos papéis de gênero no final do século XX. Não se trata de uma análise sociológica precisa do feminismo, mas de um vertiginoso autorretrato da perplexidade masculina. É um filme sobre a experiência de sonhar, onde a lógica é suspensa e o que emerge é um fluxo de consciência visual, cômico e melancólico, sobre um homem que se perde ao tentar encontrar a mulher ideal e acaba confrontando apenas a si mesmo.




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