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Filme: “HyperNormalisation” (2016), Adam Curtis

Adam Curtis, em ‘HyperNormalisation’, mergulha nas últimas décadas para desvendar como a percepção de realidade foi sutilmente redefinida e substituída por uma versão simplificada, gerida por aqueles no poder. O filme não se limita a contar uma história; ele explora a gênese de um mundo onde políticos, financistas e movimentos sociais aparentemente divergentes convergiram para…


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Adam Curtis, em ‘HyperNormalisation’, mergulha nas últimas décadas para desvendar como a percepção de realidade foi sutilmente redefinida e substituída por uma versão simplificada, gerida por aqueles no poder. O filme não se limita a contar uma história; ele explora a gênese de um mundo onde políticos, financistas e movimentos sociais aparentemente divergentes convergiram para uma ordem em que a complexidade dos problemas reais é contornada pela criação de uma narrativa estável, ainda que ilusória. Curtis argumenta que, a partir dos anos 1970, quando os sistemas de poder sentiram que perderam o controle, eles, e gradualmente a população, aceitaram essa realidade fabricada, não porque fosse ideal, mas porque era a única alternativa aparentemente viável frente a um futuro incerto.

Com sua estética característica de colagem de vasto material de arquivo, entrelaçado com uma narração autoritária e por vezes inquietante, o cineasta constrói uma linha do tempo que conecta eventos díspares, desde a política externa de Kissinger no Oriente Médio até a ascensão de figuras como Donald Trump e as redes sociais. O longa sugere que a incapacidade de imaginar um futuro diferente do presente levou a uma paralisia, onde o objetivo não é mais transformar o mundo, mas administrá-lo dentro dos limites de uma realidade consensual pré-estabelecida. A análise de Curtis examina como essa gestão da realidade se manifesta em esferas diversas, da geopolítica ao cotidiano, onde a autenticidade é negociada por uma estabilidade superficial.

A obra se aprofunda na implicação de se viver dentro dessa bolha de conveniência, onde a busca por verdade é frequentemente substituída pela aceitação de narrativas que se encaixam em expectativas pré-formatadas. O filme propõe que a aceitação de uma ‘realidade conveniente’, embora possa proporcionar uma sensação temporária de ordem, inibe a capacidade crítica e a busca por soluções genuínas para problemas complexos. É um exame perspicaz sobre como as sociedades podem, por vezes, preferir a clareza de uma simplificação à incerteza da verdade, perpetuando um ciclo onde a ficção se torna a premissa de nossa existência social e política. A observação de Curtis, em sua essência, delineia um panorama inquietante sobre a forma como o imaginário coletivo é moldado e como isso afeta nossa capacidade de ação e de percepção.


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