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Filme: “Ashes” (2012), Apichatpong Weerasethakul

Em ‘Ashes’, o cineasta Apichatpong Weerasethakul documenta fragmentos da vida cotidiana em uma cidade tailandesa, focando em um homem chamado Ruangsuwan. Acompanhamos suas interações com amigos, suas visitas ao mercado local e momentos de tranquilidade em um templo. Filmado inteiramente com a câmera LomoKino, um dispositivo manual de 35mm, o curta-metragem adquire uma textura granulada…


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Em ‘Ashes’, o cineasta Apichatpong Weerasethakul documenta fragmentos da vida cotidiana em uma cidade tailandesa, focando em um homem chamado Ruangsuwan. Acompanhamos suas interações com amigos, suas visitas ao mercado local e momentos de tranquilidade em um templo. Filmado inteiramente com a câmera LomoKino, um dispositivo manual de 35mm, o curta-metragem adquire uma textura granulada e instável, cheia de vazamentos de luz e arranhões que se tornam parte integrante da linguagem visual. A fisicalidade do processo de filmagem é evidente em cada frame, conferindo às imagens uma qualidade tátil e onírica.

A narrativa, no entanto, não segue um percurso linear. O foco se desloca da observação de Ruangsuwan para cenas que parecem pertencer a um domínio mais pessoal do diretor, incluindo imagens de seu parceiro e vislumbres de uma Bangkok devastada por inundações. Esta justaposição do público e do privado, do sereno e do caótico, serve a um propósito maior. A própria materialidade do filme, com suas imperfeições visuais, ecoa a fragilidade da memória. Weerasethakul parece investigar o conceito budista de Anicca, a impermanência, onde tanto as paisagens quanto os próprios registros fílmicos estão sujeitos à dissolução e à transformação, assim como as cinzas do título.

O curta funciona menos como um diário e mais como um artefato arqueológico do presente. A câmera LomoKino não é apenas uma ferramenta, mas uma extensão da percepção do cineasta, uma que captura o mundo não como ele é, mas como ele é lembrado: em flashes, com lacunas e com uma beleza que reside na sua própria transitoriedade. A obra de Apichatpong Weerasethakul, aqui, explora a relação entre a tecnologia de captura e a natureza efêmera da experiência, resultando em um filme que é, simultaneamente, um registro e a sua própria desintegração.


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