Em algum lugar da Espanha franquista, Christopher Lee ajusta a sua capa e prepara-se para encarnar Drácula mais uma vez. As câmaras rolam para a produção de “O Conde Drácula”, de Jesús Franco, um filme de terror que promete seguir à risca o romance de Bram Stoker. Contudo, outra câmara, furtiva e analítica, opera em paralelo. É a de Pere Portabella, que não está interessado no produto final de Franco, mas sim no processo, nos interstícios, na matéria-prima da criação cinematográfica. O seu “Vampir” não é um documentário de bastidores convencional, mas um filme-parasita que se alimenta do seu anfitrião para construir um discurso completamente autónomo e radicalmente diferente.
Portabella não filma a ficção, mas os seus ossos. A sua lente capta o tédio dos atores entre tomadas, o trabalho braçal dos técnicos que ajustam luzes e cabos, os retoques de maquilhagem que transformam um ator britânico num monstro aristocrata. A banda sonora ignora os diálogos dramáticos e a música orquestral, preferindo os sons crus do set: o ruído do gerador, as instruções da equipa, o silêncio pesado de um estúdio. Ao desmontar a ilusão, o cineasta catalão expõe a mecânica por trás da fantasia. Vemos Christopher Lee a ler um jornal vestido a rigor ou a praticar as suas falas com uma normalidade que contrasta com a iconografia gótica que o rodeia, fragmentando a imagem mítica do vampiro e revelando o homem por baixo da personagem.
O que emerge é um ato de dissecção política disfarçado de exercício estético. Filmado sob a vigilância da ditadura, onde a censura controlava qualquer narrativa, a abordagem de Portabella torna-se um comentário sobre o próprio poder. O vampiro de Bram Stoker é um fantasma do passado feudal, uma força que drena a vida da modernidade, mas o verdadeiro espectro que assombra cada fotograma é a própria ditadura, uma presença invisível que condiciona todos os gestos. A atmosfera do filme de Franco é de terror explícito; a de Portabella é de uma estranheza opressiva, onde o monstro real não é o que está diante da câmara, mas o sistema que a permite funcionar.
Desta forma, “Vampir” opera como um ensaio visual sobre a natureza da representação e do controlo. Ao desviar o foco da história para a sua fabricação, Portabella questiona quem realmente detém o poder da imagem e como as estruturas de poder se manifestam nos lugares mais inesperados, como um set de filmagem de um filme B de terror. É um documento singular do cinema espanhol, uma obra que não se limita a registar a criação de um monstro, mas que expõe a monstruosidade latente no próprio ato de olhar e de ser vigiado.




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