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Filme: “Pelo Malo” (2013), Mariana Rondon

Nas entranhas verticais e ruidosas de um conjunto habitacional em Caracas, Junior, um garoto de nove anos, nutre uma obsessão singular: alisar seu cabelo crespo. O objetivo é a foto do anuário escolar, na qual ele deseja se parecer com um dos cantores populares da moda, de fios lisos e escorridos. Essa fixação, aparentemente infantil,…


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Nas entranhas verticais e ruidosas de um conjunto habitacional em Caracas, Junior, um garoto de nove anos, nutre uma obsessão singular: alisar seu cabelo crespo. O objetivo é a foto do anuário escolar, na qual ele deseja se parecer com um dos cantores populares da moda, de fios lisos e escorridos. Essa fixação, aparentemente infantil, torna-se o epicentro de um conflito silencioso e corrosivo com sua mãe, Marta. Viúva e recém-desempregada, ela navega a dura realidade da sobrevivência diária, e a insistência do filho com o cabelo, que ela chama pejorativamente de “pelo malo”, é interpretada por ela como um desvio inaceitável, um sinal de uma feminilidade que ela não sabe, ou não quer, compreender.

A diretora Mariana Rondon constrói a narrativa não com grandes eventos, mas com a acumulação de pequenos gestos, olhares e diálogos cortantes. A câmera se move com uma intimidade quase documental pelos corredores apertados do apartamento, capturando a tensão que se instala no ar. Marta, sobrecarregada pelas pressões econômicas e sociais, projeta suas próprias ansiedades e frustrações em Junior. Sua rejeição ao cabelo do filho é um sintoma de um medo maior: o medo do julgamento, da não conformidade, de qualquer coisa que possa tornar a vida deles ainda mais vulnerável. Em contrapartida, a avó de Junior oferece um refúgio de aceitação, um espaço onde a identidade do garoto pode respirar, ainda que brevemente.

O filme meticulosamente mapeia a dinâmica do olhar, onde a observação constante da mãe se torna uma força formativa e, por vezes, deformadora na psique do filho. O desejo de Junior de mudar sua aparência é uma tentativa de controlar como é percebido, de se moldar a uma imagem que ele acredita ser mais aceitável. Rondon utiliza o som de forma brilhante; o barulho incessante da cidade, da televisão e dos vizinhos cria uma paisagem sonora claustrofóbica que espelha a pressão interna vivida pelos personagens. Através deste microcosmo familiar, o cinema venezuelano aqui expõe as fissuras de uma sociedade marcada pela rigidez dos papéis de gênero, pela homofobia velada e pela luta de classes.

Pelo Malo se recusa a oferecer catarses fáceis ou julgamentos morais sobre seus personagens. A jornada de Junior não é sobre uma simples transformação estética, mas sobre a busca por um lugar no mundo, ou ao menos, no pequeno universo de seu apartamento. O desfecho, pragmático e desprovido de sentimentalismo, ancora o impacto emocional do filme na fricção não resolvida entre afeto e rejeição, uma condição que define a complexa relação entre mãe e filho. É uma obra que observa com precisão a maneira como as inseguranças sociais e econômicas se manifestam nos laços mais íntimos, deixando uma marca duradoura pela sua honestidade e pela sua abordagem contida e potente.


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