Na cidade de Nalchik, Cáucaso do Norte, em 1998, o ar é denso tanto pela umidade quanto pelas tensões étnicas latentes. Em meio a esse ambiente carregado, uma família judia se reúne para celebrar o noivado do filho, David. A festa, contudo, é brutalmente interrompida. David e sua noiva são sequestrados, e um pedido de resgate lança a família em um estado de paralisia e desespero. A polícia é inconfiável e a comunidade, embora unida, carece dos recursos necessários. A narrativa de Closeness, ou Tesnota no original, ancora-se não nos pais aflitos, mas na irmã mais nova de David, Ilana, uma jovem de espírito rebelde que trabalha na oficina mecânica do pai e se sente uma estranha dentro de seu próprio núcleo familiar.
A crise expõe as fissuras preexistentes na família e na comunidade. Para Ilana, interpretada com uma energia crua e magnética por Darya Zhovner, a pressão para se conformar torna-se insuportável. O sequestro força a família a considerar a venda de seu negócio e a buscar ajuda dentro da fechada comunidade judaica, cujas soluções impõem a Ilana um sacrifício pessoal devastador. O diretor Kantemir Balagov enquadra a ação em um formato de tela 4:3, uma escolha formal que transforma cada cena em um espaço confinado, amplificando a sensação de aprisionamento social, familiar e psicológico da protagonista. O mundo de Ilana é um lugar sem ar, onde a lealdade tribal e o amor familiar se confundem com uma forma de asfixia.
A obra atinge um ponto de inflexão ético quando Ilana e seu namorado kabardiano, Zalim, assistem a uma fita de vídeo real com execuções da guerra da Chechênia. A inclusão da gravação, longe de ser um mero artifício de choque, contextualiza a violência privada do sequestro dentro de uma brutalidade regional endêmica, onde a vida humana parece ter um valor transacional. É aqui que o filme investiga sua premissa mais desconfortável: a proximidade, o “closeness” do título, não é apenas um sinônimo de afeto. A comunidade, antes um refúgio, revela-se como uma entidade que, para garantir sua sobrevivência coletiva, pode exigir um sacrifício existencial do indivíduo. A obrigação de pertencimento colide frontalmente com o desejo de autonomia.
Closeness não se ocupa em julgar as escolhas de seus personagens, imersos em uma realidade onde a moralidade é um luxo. O que Balagov constrói é um documento austero sobre a mecânica da sobrevivência em um tempo e lugar específicos, examinando como os laços mais íntimos podem se tornar correntes. A estreia do diretor é um exercício de cinema físico e sensorial, que recusa o sentimentalismo para oferecer um retrato complexo e abrasivo da juventude e do pertencimento, anunciando a chegada de uma voz cinematográfica singularmente potente e desconfortável.




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