Em um fogão elétrico, uma fotografia repousa sobre a serpentina quente. Enquanto a imagem começa a ondular, empolar e por fim se carbonizar, a voz impassível do cineasta Michael Snow narra uma anedota ligada a uma fotografia. O descompasso deliberado é o motor da obra: a narração não descreve a fotografia que vemos ser destruída, mas sim a próxima que surgirá na tela, criando uma assincronia constante entre o que se vê, o que se ouve e o que se espera. Este é o dispositivo cênico central de (nostalgia), o trabalho seminal de Hollis Frampton que investiga a mecânica da memória e a materialidade da imagem com a precisão de um cientista e a sensibilidade de um poeta. O filme é uma sequência de doze fotografias do próprio Frampton, cada uma submetida ao mesmo ritual de aniquilação.
O que se revela não é um exercício sentimental sobre o passado, como o título poderia sugerir. A nostalgia aqui é de uma ordem diferente, mais cerebral e imediata. É a nostalgia pela imagem que se desfaz diante dos nossos olhos, uma imagem que nunca conseguimos apreender por completo porque a nossa atenção está dividida pela narrativa que prenuncia o futuro. Frampton desmantela a função primária da fotografia, a de preservar um instante, ao reintroduzir o tempo de forma agressiva. Cada fotografia deixa de ser um artefato estático para se tornar um evento em processo de desaparecimento. Neste ato, a obra parece dialogar com a ideia do punctum de Roland Barthes, aquele detalhe que perfura o observador. A ferida, aqui, não é um detalhe contido na imagem, mas o próprio ato de sua aniquilação, a percepção de que a memória contida nela é tão volátil quanto a emulsão fotográfica no calor.
Situado no cânone do cinema estrutural norte-americano, (nostalgia) opera como uma peça autobiográfica que recusa a confissão. As histórias narradas são pessoais, repletas de nomes e lugares da cena artística da época, mas o tratamento formal as afasta de qualquer sentimentalismo. A estrutura rigorosa e repetitiva força o espectador a focar não no conteúdo das memórias, mas no processo pelo qual elas são formadas, armazenadas e, inevitavelmente, corrompidas ou perdidas. O filme expõe como a linguagem, verbal ou visual, é um sistema de mediação imperfeito, incapaz de conter a totalidade de uma experiência.
Ao final, a obra se afirma como uma profunda reflexão sobre a natureza do cinema e da percepção. Frampton utiliza os elementos fundamentais do meio, a imagem e o som, para questionar a sua própria relação com o tempo. Não se trata de uma viagem ao passado, mas de uma demonstração elegante e implacável da impossibilidade de reter o presente. Cada fotografia queimada é um instante que se foi, e a narração que a acompanha é a prova de que mesmo a nossa antecipação do futuro já está, de certa forma, ancorada em uma perda.




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