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Filme: “O Diabo Disse Não” (1943), Ernst Lubitsch

Henry Van Cleve chega ao inferno convencido de seu lugar. Diante de um impecavelmente cortês e burocrático anfitrião, Sua Excelência, ele se candidata a uma vaga na danação eterna, certo de que sua vida de prazeres e egoísmo o qualifica. A premissa de O Diabo Disse Não, a obra-prima em Technicolor de Ernst Lubitsch, já…


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Henry Van Cleve chega ao inferno convencido de seu lugar. Diante de um impecavelmente cortês e burocrático anfitrião, Sua Excelência, ele se candidata a uma vaga na danação eterna, certo de que sua vida de prazeres e egoísmo o qualifica. A premissa de O Diabo Disse Não, a obra-prima em Technicolor de Ernst Lubitsch, já estabelece o tom: uma comédia sofisticada que utiliza a antessala do além para reexaminar uma vida inteira de pequenas transgressões e um grande amor. O filme se desenrola como a confissão de Henry, uma narrativa que ele apresenta ao diabo como seu currículo para o castigo.

A história que se segue é a crônica de um bon vivant da alta sociedade nova-iorquina, desde seu nascimento até seus setenta anos. A interpretação de Don Ameche como Henry é precisa, construindo um personagem cujos defeitos são inegáveis, mas cujo charme é ainda mais potente. Ele é um homem que nunca negou a si mesmo um capricho, especialmente se envolvesse uma mulher bonita. O ponto de inflexão de sua jornada acontece quando ele conhece Martha, a noiva de seu primo certinho. Em uma manobra de pura audácia, ele a convence a fugir com ele, dando início a um casamento que duraria décadas. É na dinâmica desse relacionamento que o filme encontra seu centro emocional. A Martha de Gene Tierney não é uma figura passiva; ela compreende a natureza de Henry e o ama não apesar de suas falhas, mas talvez por causa do vigor vital que elas representam. A narrativa acompanha as infidelidades dele e o perdão dela, em um ciclo que seria trágico em qualquer outro filme, mas que aqui é tratado com a leveza e a inteligência características de Lubitsch.

O que eleva O Diabo Disse Não para além de uma simples comédia romântica é a sua direção, a materialização do famoso “toque de Lubitsch”. A câmera nunca é explícita. O humor e o drama são construídos na elipse, no que é sugerido por uma porta fechada, um olhar trocado ou uma frase espirituosa que diz tudo sem afirmar nada. A moralidade da história é igualmente oblíqua. O filme não busca julgar Henry com base em um código de conduta rígido. Em vez disso, propõe uma avaliação diferente, quase epicurista, de uma existência. A questão que paira não é se Henry foi um homem “bom”, mas se ele viveu plenamente, se suas afeições, por mais imperfeitas, foram genuínas.

Ao final, a análise da vida de Henry Van Cleve se torna um estudo sobre a natureza humana, o amor duradouro e a memória. A narrativa que ele constrói para Sua Excelência é a sua verdade, e é através dessa perspectiva que somos levados a ponderar. O filme sugere que uma vida não é a soma de suas infrações morais, mas a qualidade de seus laços e a intensidade de suas paixões. A conclusão, espirituosa e agridoce, revela que talvez o critério para a salvação ou a danação seja mais complexo e irônico do que as religiões ousam imaginar, especialmente quando o juiz final aprecia uma boa história bem contada.


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