Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Trapaça” (2013), David O. Russell

“Trapaça”, de David O. Russell, não é uma simples crônica sobre o infame golpe Abscam que agitou os Estados Unidos no final dos anos 70. É, antes de tudo, um mergulho vertiginoso na psique de figuras que transformam a vida em um palco particular, onde a linha entre a farsa e a autenticidade se esvai…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

“Trapaça”, de David O. Russell, não é uma simples crônica sobre o infame golpe Abscam que agitou os Estados Unidos no final dos anos 70. É, antes de tudo, um mergulho vertiginoso na psique de figuras que transformam a vida em um palco particular, onde a linha entre a farsa e a autenticidade se esvai com cada passo calculado. O filme nos apresenta Irving Rosenfeld, interpretado por Christian Bale em uma metamorfose corporal e vocal, um vigarista de Queens com um negócio lucrativo que se equilibra entre galerias de arte falsas e empréstimos duvidosos. Sua vida de malandragem ganha um tempero explosivo com a chegada de Sydney Prosser, vivida por Amy Adams com uma intensidade magnética. Ela não apenas se torna sua cúmplice nos esquemas, mas também sua musa, sua outra metade em um balé de identidades fabricadas.

A dinâmica entre Irving e Sydney é o motor inicial. Eles constroem um universo onde a mentira é a moeda mais valiosa e a confiança, um luxo. Essa dupla é brutalmente inserida no mundo da lei e da ordem quando o ambicioso agente do FBI Richie DiMaso, interpretado por Bradley Cooper com uma energia efervescente, os captura em uma operação. Em vez de prisão, DiMaso oferece uma saída: colaborar para desmantelar uma rede de corrupção política, usando suas habilidades de ilusionismo para pegar figurões do crime e do governo em flagrante. O palco para a Abscam está montado, e com ele, uma série de situações rocambolescas que colocam à prova a lealdade, o amor e a própria sanidade dos envolvidos.

É neste ponto que “Trapaça” transcende a narrativa de um mero golpe. O filme se aprofunda na maleabilidade da identidade e na incessante reinvenção do eu. Cada personagem, do vigarista ao agente da lei, passando pela imprevisível esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence em uma performance que desafia categorias), está, de alguma forma, tentando ser alguém que não é ou que ainda não é. Eles vestem personas como figurinos da época – dos penteados exagerados às roupas de poliéster reluzentes – e, por vezes, parecem se perder nessas criações. A trama explora o desejo universal por ascensão, por uma vida mais grandiosa, mesmo que isso signifique viver uma elaborada mentira. O verdadeiro jogo aqui não é apenas o do gato e rato entre bandidos e a lei, mas o da luta interna para manter a própria essência, ou para descobrir se ela sequer existe, em meio a tantas camadas de disfarce. A encenação permeia cada interação, revelando que a maior trapaça pode ser aquela que fazemos a nós mesmos, na busca incessante por um lugar ao sol.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading