Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Zama” (2017), Lucrecia Martel

Lucrecia Martel transporta o espectador para as fronteiras de um vice-reinado esquecido na América do Sul do final do século XVIII, onde o corregedor espanhol Don Diego de Zama reside numa colônia isolada. Sua existência é dominada por uma espera angustiante: a promessa de uma transferência para um posto mais prestigiado em Buenos Aires, uma…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Lucrecia Martel transporta o espectador para as fronteiras de um vice-reinado esquecido na América do Sul do final do século XVIII, onde o corregedor espanhol Don Diego de Zama reside numa colônia isolada. Sua existência é dominada por uma espera angustiante: a promessa de uma transferência para um posto mais prestigiado em Buenos Aires, uma concessão sempre adiada pela intrincada e indiferente burocracia colonial. Conforme os anos se arrastam, Zama, um homem de certa posição, sente sua dignidade e sanidade se esvaírem sob o sol implacável e o peso da estagnação.

Martel constrói este universo com uma notável arquitetura sensorial. O filme é uma imersão auditiva e visual densa, onde os sons abafados da selva, os cochichos dos servos e o barulho da vida colonial formam uma paisagem tão intrusiva quanto os vislumbres do calor e da podridão. A narrativa é deliberadamente elíptica, com fragmentos de conversas e eventos significativos muitas vezes relegados a fora de campo, forçando o público a montar as peças de uma realidade em desintegração, ecoando a crescente desorientação de Zama.

‘Zama’ se revela como uma exploração da entropia do poder colonial e da gradual corrosão da identidade individual. Zama personifica a futilidade de uma ambição que se choca contra a indiferença burocrática e a vastidão inóspita do continente. A espera indefinida, que se torna a própria substância de sua existência, conduz a uma aporia: um impasse onde a busca por reconhecimento e propósito se vê perpetuamente diferida, levando a uma lenta desintegração do eu. A obra sublinha como a paralisia imposta pela expectativa pode ser uma forma de aniquilação, onde a lucidez e o desvario se misturam na paisagem mental do protagonista.

Longe de uma progressão narrativa convencional, a obra de Martel convida a uma imersão no estado de espírito de um homem à beira do desmonte em um mundo em ruínas. ‘Zama’ é uma experiência cinematográfica peculiar, que se instala na mente do espectador, questionando a própria noção de tempo e propósito. Sua atmosfera densa e o mergulho na psique do protagonista o colocam como uma realização notável dentro do cinema contemporâneo, reverberando muito depois dos créditos finais.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading