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Filme: “A Baía” (2016), Bruno Dumont

“A Baía”, do diretor Bruno Dumont, transporta o espectador para o idílico, mas inquietante, litoral da região de Pas-de-Calais, no verão de 1910. Aqui, duas famílias se encontram e se colidem em um espetáculo de excentricidades sociais e hábitos perturbadores. De um lado, os Mâchon, uma família de humildes pescadores e coletores de ostras, liderados…


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“A Baía”, do diretor Bruno Dumont, transporta o espectador para o idílico, mas inquietante, litoral da região de Pas-de-Calais, no verão de 1910. Aqui, duas famílias se encontram e se colidem em um espetáculo de excentricidades sociais e hábitos perturbadores. De um lado, os Mâchon, uma família de humildes pescadores e coletores de ostras, liderados pelo pai bruto e com uma prole de apetite insaciável – por vezes, literal. Do outro, os Van Peteghem, burgueses parisienses extravagantes e decadentes, que chegam para suas férias anuais em uma mansão à beira-mar, exibindo uma arrogância e um esgoto moral velado. A chegada do detetive Machin e seu assistente, Malfoy, para investigar uma série de desaparecimentos misteriosos na baía, serve de catalisador para a intersecção desses mundos.

A trama se desdobra com uma lentidão deliberada, que permite a imersão no universo bizarro de Dumont. As interações entre os jovens da família Mâchon e a aristocrata Van Peteghem, notavelmente a estranha atração entre Ma Loute (o filho mais velho dos Mâchon) e a andrógina Billie Van Peteghem, adicionam camadas de uma comédia sombria. Os Mâchon, com sua peculiar forma de locomoção e hábitos alimentares que gradualmente revelam sua verdadeira natureza predatória, atuam como um contraponto visceral à pretensão dos Van Peteghem, cujas excentricidades beiram o ridículo. A paisagem vasta e impiedosa da baía, com suas marés traiçoeiras e dunas movediças, parece refletir a moralidade instável de seus habitantes.

Dumont orquestra uma sátira social que dissecas as relações de classe com um olhar que é simultaneamente crítico e desinteressado. O filme desestabiliza a noção de civilidade, explorando o grotesco e o primitivo que subjaz à superfície da sociedade. A obra não julga explicitamente seus personagens; ao invés disso, ela os apresenta em toda a sua crueza e peculiaridade, convidando a uma reflexão sobre a animalidade inerente ao ser humano, independentemente de sua classe social. Aqui, a distinção entre o civilizado e o selvagem se esvai, e a carne, seja humana ou animal, torna-se um elo comum. Nesse sentido, Dumont flerta com a noção da inversão carnavalesca, onde as hierarquias são subvertidas e o corpo, em suas manifestações mais repulsivas e absurdas, assume o centro do palco, expondo as falhas e hipocrisias de um mundo que se crê superior.

“A Baía” é, acima de tudo, uma experiência cinematográfica singular, que opera num registro que mistura o humor absurdo com o drama existencial. A direção de Dumont, com seu ritmo contemplativo e planos fixos que enquadram a paisagem e os corpos de forma quase escultural, contribui para uma atmosfera de estranhamento e fascínio. Não é uma narrativa convencional; trata-se de um estudo de personagens e de uma sociedade em colapso, onde a linha entre o comestível e o abominável se desfaz, oferecendo um vislumbre perturbador e hilário da humanidade em seu estado mais despido. O filme reafirma a posição de Dumont como um dos cineastas mais singulares da atualidade, capaz de extrair o riso e o desconforto de um mesmo cenário.


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