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Filme: “A Hora dos Fornos” (1968), Fernando E. Solanas, Octavio Getino

“A Hora dos Fornos”, obra seminal de Fernando E. Solanas e Octavio Getino, é uma investigação profunda e multifacetada sobre as raízes da dependência e do subdesenvolvimento na Argentina e, por extensão, em toda a América Latina. Dividido em três partes — “Neocolonialismo e Violência”, “Ato para a Libertação” e “Violência e Libertação” — o…


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“A Hora dos Fornos”, obra seminal de Fernando E. Solanas e Octavio Getino, é uma investigação profunda e multifacetada sobre as raízes da dependência e do subdesenvolvimento na Argentina e, por extensão, em toda a América Latina. Dividido em três partes — “Neocolonialismo e Violência”, “Ato para a Libertação” e “Violência e Libertação” — o filme, com suas mais de quatro horas de duração, transcende a mera documentação para se estabelecer como uma intervenção fílmica, um manifesto político articulado em linguagem cinematográfica. Ele dissecou impiedosamente as estruturas de poder que perpetuavam a exploração, desde o imperialismo externo até as elites internas, utilizando uma montagem vertiginosa de material de arquivo, entrevistas clandestinas, noticiários, gráficos e intervenções estilísticas que rompiam com a linguagem do cinema tradicional.

A proposta da dupla Solanas e Getino era desmistificar as narrativas oficiais e expor a violência inerente ao sistema capitalista e neocolonial. A primeira parte funciona como um diagnóstico brutal das condições sociais, econômicas e políticas, enquanto a segunda aborda as tentativas de organização e luta dos movimentos populares. A terceira, mais experimental, foca na necessidade de uma ação transformadora. Longe de ser um mero registro passivo, a obra se propôs a ser um catalisador para a discussão e a ação política, pensado para ser exibido em circuitos alternativos, com pausas para debate. Essa interação sublinha a crença no cinema como um agente de mudança, onde a teoria se funde com a ação. O filme não apenas expõe a realidade; ele busca mobilizar a consciência, defendendo que a compreensão crítica das condições de opressão deve impulsionar a busca pela libertação.

Seu impacto se estendeu muito além das fronteiras argentinas, consolidando-se como um dos pilares do Terceiro Cinema, movimento que reivindicava um cinema engajado e revolucionário, distanciando-se tanto da produção hollywoodiana quanto do cinema de arte europeu. ‘A Hora dos Fornos’ permanece relevante como um estudo sobre as dinâmicas de poder global e as complexidades da descolonização. Sua forma fragmentada e seu conteúdo incendiário continuam a desafiar o espectador a refletir sobre a relação entre imagem, poder e transformação social, sendo um exemplar pungente de como o cinema pode ser uma arma na crítica aos mecanismos de dominação.


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