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Filme: “A Qualquer Custo” (2016), David Mackenzie

No calor impiedoso do oeste do Texas, onde as placas de “À Venda” em frente a ranchos familiares são mais comuns que a chuva, dois irmãos iniciam uma série calculada de assaltos a banco. Toby Howard, um pai divorciado com uma ficha criminal limpa e um semblante de desespero contido, é o cérebro da operação.…


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No calor impiedoso do oeste do Texas, onde as placas de “À Venda” em frente a ranchos familiares são mais comuns que a chuva, dois irmãos iniciam uma série calculada de assaltos a banco. Toby Howard, um pai divorciado com uma ficha criminal limpa e um semblante de desespero contido, é o cérebro da operação. Seu irmão, Tanner, um ex-presidiário com um pavio curto e um sorriso selvagem, é a força bruta imprevisível. O alvo deles não são os cofres cheios, mas pequenas quantias de agências específicas do mesmo banco, o Texas Midlands, numa estratégia peculiar que lentamente revela seu propósito: eles não estão roubando por ganância, mas para pagar ao próprio banco que ameaça tomar a terra de sua família, um terreno que recentemente revelou a presença de petróleo. É um plano para roubar de volta um futuro que lhes foi negado.

Na trilha deles está Marcus Hamilton, um Texas Ranger a poucos dias da aposentadoria, cuja sagacidade se esconde sob uma camada de piadas rudes e uma melancolia de quem vê seu mundo desaparecer. A dinâmica entre Hamilton e seu parceiro de ascendência comanche e mexicana, Alberto Parker, serve como um comentário mordaz sobre a história daquela terra, um lugar construído sobre ciclos de conquista e desapropriação. A caçada que se segue é menos uma perseguição em alta velocidade e mais um jogo de xadrez lento e metódico, travado em postos de gasolina empoeirados e restaurantes de beira de estrada. A direção de David Mackenzie, combinada ao roteiro incisivo de Taylor Sheridan, constrói uma tensão que não vem da ação explosiva, mas da inevitabilidade do confronto e do peso das escolhas de cada personagem.

A Qualquer Custo se afasta das convenções de um simples filme de assalto para desenhar um retrato complexo da América rural pós-crise financeira de 2008. A pobreza não é um pano de fundo, mas o motor central da narrativa, uma força que redefine a moralidade. A lógica por trás dos assaltos beira uma forma de rebelião existencialista: num sistema que os condena ao fracasso, o crime torna-se o único ato de autonomia possível, uma tentativa de quebrar o ciclo intergeracional de dívidas que assola a região. O filme opera com uma economia de diálogos notável, onde o que não é dito entre os irmãos ou entre os rangers carrega tanto significado quanto as palavras trocadas.

O longa de Mackenzie é uma obra sobre legados, sejam eles de dívida, de terra ou de violência. As performances de Chris Pine, Ben Foster e, especialmente, Jeff Bridges, são contidas e autênticas, ancorando a narrativa em uma realidade palpável. A fotografia captura a vastidão desoladora da paisagem, transformando o cenário num personagem que testemunha silenciosamente a luta de seus habitantes. Ao final, a poeira assenta não para revelar vencedores ou perdedores, mas para expor as consequências duradouras de atos desesperados. O ciclo de violência e dívida, ao que parece, apenas troca de mãos.


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