Cheyenne, uma antiga estrela do rock, vive uma existência em suspensão. Com o cabelo negro desgrenhado, a maquiagem pálida e uma voz fina, quase infantil, que contrasta com a figura imponente de Sean Penn, ele passa os dias em um tédio luxuoso em sua mansão em Dublin, ao lado de uma paciente e pragmática esposa, interpretada por Frances McDormand. Seu tempo é preenchido por jogos de pelota basca e investimentos na bolsa de valores, atividades que parecem tão deslocadas quanto sua própria persona, congelada no auge gótico dos anos 80. A notícia da morte iminente de seu pai, com quem não fala há trinta anos, o força a uma viagem relutante a Nova Iorque. Ele chega tarde demais para uma reconciliação, mas encontra um diário que revela um segredo: seu pai, um judeu ortodoxo, passou a vida obcecado em encontrar o oficial nazista que o humilhou em Auschwitz. Cheyenne, o filho apático e distante, decide assumir para si essa obsessão tardia, trocando a monotonia irlandesa por uma peregrinação improvável pelo coração da América.
O que se segue é a materialização da visão peculiar de Paolo Sorrentino sobre o gênero do road movie. A busca pelo carrasco nazista serve menos como um thriller de vingança e mais como um pretexto para uma jornada através de paisagens americanas vastas e silenciosas, povoadas por personagens singulares que orbitam o protagonista. A câmera de Sorrentino se move com uma elegância calculada, transformando postos de gasolina, motéis de beira de estrada e pequenas cidades do interior em palcos para encontros que oscilam entre o cômico e o melancólico. A interação de Cheyenne com a América é a de um alienígena analisando uma cultura que ele não compreende, e o filme extrai um humor seco dessa dissonância. A narrativa se recusa a acelerar o ritmo, preferindo se demorar na estranheza das situações e no desenvolvimento gradual de seu personagem central, que se move com a lentidão de quem carrega um peso invisível.
No fundo, a expedição de Cheyenne é um exercício de absurdismo existencial. A imagem de uma figura como ele, um ícone pop em decadência, rastreando um fantasma da Segunda Guerra Mundial, encapsula a busca por significado em um mundo aparentemente desprovido dele. Ele não está equipado para a missão, seja emocional ou praticamente, e é justamente essa inadequação que impulsiona a narrativa. Sorrentino explora a ideia de legado e de trauma herdado não através de confrontos dramáticos, mas por meio de uma transformação sutil. A cada parada, Cheyenne se despe um pouco mais de sua armadura performática. A busca pelo outro se revela, gradualmente, uma busca por uma conexão consigo mesmo e com a figura paterna que ele mal conheceu. A jornada o obriga a confrontar a vida fora de sua bolha autoimposta, forçando-o a uma maturidade que ele evitou por décadas. O filme não oferece resoluções fáceis para feridas históricas ou familiares, concentrando-se em vez disso na possibilidade de um homem encontrar seu lugar no mundo, não por meio de uma grande epifania, mas através do simples ato de se colocar em movimento.




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