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Filme: “Flores” (2017), Jorge Jácome

Em ‘Flores’, o cineasta Jorge Jácome transporta o espectador para o cenário etéreo de uma ilha açoriana prestes a ser desocupada. A narrativa central se concentra em uma base militar nas Lajes, onde três jovens soldados se encontram em um limbo existencial, imersos na iminência do abandono do local e na exuberância das flores de…


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Em ‘Flores’, o cineasta Jorge Jácome transporta o espectador para o cenário etéreo de uma ilha açoriana prestes a ser desocupada. A narrativa central se concentra em uma base militar nas Lajes, onde três jovens soldados se encontram em um limbo existencial, imersos na iminência do abandono do local e na exuberância das flores de hibisco que proliferam descontroladamente por toda parte. O filme de Jácome não se limita a registrar a saída de uma presença militar; ele mergulha nas texturas de um lugar em transição, onde a natureza, personificada pelas vibrantes flores de hibisco, se prepara para reaver seu espaço, tomando conta das estruturas deixadas para trás.

O que se desenrola neste exemplar do cinema português é uma observação melancólica e por vezes agridoce da coexistência entre a disciplina humana e o caos organizado da vida vegetal. ‘Flores’ transita habilmente entre o ficcional e o documental, construindo um retrato vívido da ilha e de seus habitantes – sejam eles os humanos em uniforme que contam seus dias finais, ou a flora que floresce indiscriminadamente por entre os escombros de uma presença em declínio. A câmera de Jorge Jácome passeia pelos corredores vazios, pelas camas desfeitas, pelos armamentos silenciosos, sempre retornando aos vibrantes hibiscos que parecem ser os verdadeiros protagonistas desta narrativa sobre ciclos e o esquecimento gradual.

Nesse documentário experimental, o diretor emprega uma estética singular que privilegia a contemplação sobre a explicação, a sugestão sobre a declaração. A desocupação da base militar nas Lajes serve como pano de fundo para uma meditação sobre a impermanência. A efemeridade da presença humana, a transitoriedade de suas construções e a resiliência implacável da natureza se manifestam em cada plano. O filme, através de sua linguagem visual poética, encoraja uma reflexão sobre a memória dos lugares e a forma como o tempo reconfigura paisagens e existências. O resultado é um ‘Flores’ que ressoa muito além das suas imagens, uma obra de cinema que se inscreve na mente do espectador como um lembrete sutil da ordem natural que sempre prevalece.


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