Numa era de gratificação instantânea, a proposta de Peter Mettler com ‘Gambling, Gods and LSD’ é uma anomalia deliberada. O cineasta canadiano embarca numa jornada de quase três horas que funciona menos como um documentário convencional e mais como um diário de campo sobre a busca humana por transcendência. A premissa é simples na sua ambição: Mettler viaja de Toronto a Las Vegas e depois para a Suíça e Índia, munido de uma câmara e de uma curiosidade genuína sobre o que leva as pessoas a tentar escapar da realidade quotidiana, seja através da fé, do risco ou de substâncias químicas. O filme não segue uma narrativa linear, preferindo um fluxo de consciência visual e sonoro que conecta mundos aparentemente distintos.
A estrutura tripartida do título serve como um mapa de navegação para os territórios que Mettler explora. O ‘gambling’ de Las Vegas não é apenas sobre o acaso, mas sobre a arquitetura da esperança, a vertigem do risco e a tecnologia desenhada para hipnotizar. Em contraste, os encontros com uma comunidade cristã em Toronto revelam uma outra forma de êxtase, uma entrega coletiva que produz um estado de transe comparável. Mettler não julga nem estabelece hierarquias; a sua câmara observa com a mesma atenção a expressão de um jogador que perde tudo e o rosto de um fiel em pleno fervor religioso. A sua montagem associa essas imagens não para forçar uma conclusão, mas para sugerir uma pulsação comum por baixo de fenómenos tão díspares.
É no terceiro pilar, o ‘LSD’, que a intenção do cineasta se torna mais nítida, culminando numa entrevista com o próprio inventor da substância, Albert Hofmann. O psicadélico é menos um tema e mais uma metáfora para a alteração da percepção, o fio que une todas as outras buscas. O filme opera num campo próximo da fenomenologia, interessado não nos objetos em si, mas na experiência subjetiva que temos deles. A câmara de Mettler, muitas vezes em longos planos-sequência, examina texturas, luzes estroboscópicas, rostos em êxtase e paisagens desoladas, tentando capturar o ato de ver em si. A sua própria narração, esparsa e inquisitiva, funciona como um contraponto filosófico que amarra as sequências, questionando o papel da imagem na nossa compreensão do mundo.
As três horas de duração são parte integrante da metodologia do filme, exigindo do espectador uma imersão que recalibra a própria percepção do tempo e da atenção. O sound design meticuloso mistura ruídos de casinos com cânticos religiosos e sons da natureza, criando uma paisagem auditiva que é tão importante quanto a visual. Ao final, ‘Gambling, Gods and LSD’ não procura definir o transcendente, mas documenta obsessivamente os seus múltiplos e, por vezes, contraditórios mecanismos em ação no mundo secular. É um exercício cinematográfico sobre a mecânica da crença e a incessante procura humana por algo que esteja para além do visível.




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