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Filme: “O Sol” (2005), Aleksandr Sokurov

Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, o Japão enfrenta a derrota iminente. Confinado em um bunker de concreto sob o Palácio Imperial, o Imperador Hirohito vive uma existência suspensa entre o mito e a realidade. Para uma nação inteira, ele é o Tenno, um descendente direto da deusa do sol…


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Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, o Japão enfrenta a derrota iminente. Confinado em um bunker de concreto sob o Palácio Imperial, o Imperador Hirohito vive uma existência suspensa entre o mito e a realidade. Para uma nação inteira, ele é o Tenno, um descendente direto da deusa do sol Amaterasu, uma figura divina cuja voz jamais foi ouvida em público. O filme de Aleksandr Sokurov, O Sol, acompanha esse homem nos momentos cruciais que antecedem a rendição, focando não nos grandes movimentos da guerra, mas na desintegração íntima e silenciosa de sua divindade. O enredo se desenrola em torno da rotina meticulosa e isolada do imperador, culminando em seu histórico encontro com o General Douglas MacArthur, o comandante americano que decidirá seu destino e o de seu país.

A abordagem de Sokurov se distancia de qualquer biografia convencional. A câmera se move com uma lentidão deliberada, quase pictórica, transformando cada cena em um quadro vivo que explora a fisicalidade e a psicologia de seu protagonista. Hirohito, na composição de Issey Ogata, é um homem pequeno, de gestos contidos e uma curiosidade quase infantil por biologia marinha, um refúgio da pressão esmagadora de sua posição. A obra se concentra nessa dissonância: a figura divina que examina espécimes de caranguejos, o soberano absoluto que se mostra desajeitado e vulnerável. O filme se torna, assim, um estudo sobre a persona, a máscara social e mitológica construída em torno de um indivíduo. Sokurov não se interessa pelo mecanismo da guerra, mas pelo mecanismo do poder simbólico e como ele se desfaz quando confrontado pela realidade material da derrota.

O Sol conclui a tetralogia do poder de Sokurov, e o faz com uma nota distintamente melancólica. Não há espetáculo na queda de Hirohito, apenas uma quietude opressiva e uma série de rituais que perdem seu significado. O filme investiga o que acontece quando um símbolo é forçado a se tornar carne e osso, a renunciar à sua própria natureza sagrada para sobreviver como um ser humano comum. É uma obra sobre a estranha banalidade que pode habitar o centro do poder absoluto e sobre o silêncio que preenche o vácuo deixado por um deus que é obrigado a caminhar entre os mortais.


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