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Filme: “O Tempo que Resta” (2009), Elia Suleiman

A jornada de uma família palestiniana, desde a criação do Estado de Israel em 1948 até os dias de hoje, é o fio condutor de ‘O Tempo que Resta’. Elia Suleiman, diretor e protagonista silencioso, constrói uma crônica semi-autobiográfica a partir dos diários de seu pai, das cartas de sua mãe e de suas próprias…


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A jornada de uma família palestiniana, desde a criação do Estado de Israel em 1948 até os dias de hoje, é o fio condutor de ‘O Tempo que Resta’. Elia Suleiman, diretor e protagonista silencioso, constrói uma crônica semi-autobiográfica a partir dos diários de seu pai, das cartas de sua mãe e de suas próprias memórias fragmentadas. O palco é a cidade de Nazaré, transformada de epicentro cultural em um enclave minoritário. Através de uma série de vinhetas, o filme documenta as pequenas e grandes transformações impostas pela história, não com discursos inflamados, mas com a observação precisa do cotidiano.

A linguagem cinematográfica de Suleiman é o elemento central. Com a câmera quase sempre estática e quadros que se assemelham a pinturas em movimento, ele compõe uma comédia de costumes com um fundo profundamente melancólico. O humor, seco e visual, emerge de situações que beiram o surreal: um vizinho que discute sobre o tamanho de sua varanda, um tanque de guerra parado em uma rua pacata enquanto a vida segue ao redor, o próprio Suleiman observando o mundo por uma janela, impassível. A comunicação ocorre menos por diálogos e mais por gestos, olhares e o ritmo cadenciado das ações, revelando a mecânica de uma vida que se adaptou a circunstâncias extraordinárias.

Essa abordagem estilística não é um mero capricho estético, mas o cerne de sua investigação sobre a existência em um local de conflito perpétuo. O filme explora uma forma de absurdo existencial, onde as rotinas diárias e as aspirações pessoais se chocam constantemente com uma realidade política opressiva e ilógica. O que emerge é um retrato da normalidade impossível, onde o absurdo se torna a lógica dominante e o silêncio se revela mais eloquente do que qualquer palavra de ordem. A obra de Suleiman documenta a persistência não como um ato grandioso, mas como uma série de pequenos gestos, teimosos e por vezes cômicos.

‘O Tempo que Resta’ se consolida como um documento pessoal e, simultaneamente, um registro sobre a forma como a grande história se inscreve nos corpos e nos lares. Suleiman não busca explicar o conflito, mas sim traduzir a sensação de viver dentro dele. É um cinema de atmosfera, que se afasta da narrativa convencional para oferecer um panorama de um estado de espírito coletivo. A obra apresenta uma perspectiva sobre a memória e o deslocamento, articulando a experiência palestiniana através de uma gramática visual única, precisa e inesquecível.


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