“The Bow”, do mestre Kim Ki-duk, não é exatamente um romance e nem um conto de fadas, mas algo pairando entre os dois, temperado pela peculiar sensibilidade do cineasta coreano. Um velho e uma jovem vivem isolados em um barco de pesca no meio do oceano. Ela foi deixada aos seus cuidados quando criança e ele, um eremita, a protege e espera, pacientemente, o dia em que ela completará 17 anos para se casar com ela. A rotina, marcada pelo silêncio e pelos rituais, é abalada pela chegada de um jovem estudante, que aluga o barco para pescar.
A tensão sexual, latente desde o início, explode em gestos mínimos e olhares carregados. O arco do título, mais do que um instrumento de pesca, é a extensão do próprio velho, um amuleto, uma arma e, fundamentalmente, a representação da sua possessividade. Kim Ki-duk usa o arco como um vetor da narrativa, um objeto que define o ritmo e os limites daquele microuniverso. A embarcação, isolada das mazelas do mundo, torna-se um palco para a exploração das obsessões humanas, da espera e da inevitável passagem do tempo.
A pureza da garota, quase intocada pelo mundo exterior, contrasta com a crescente agitação interna do velho, que vê sua promessa se aproximar, mas também a ameaça da juventude e do desejo personificados no estudante. O filme, visualmente deslumbrante, com a vastidão do mar como pano de fundo, evoca a filosofia oriental do Taoísmo, na qual a harmonia reside no equilíbrio de forças opostas: a juventude e a velhice, o desejo e a renúncia, a vida e a morte. Não há julgamentos morais fáceis, apenas a observação da natureza humana em seu estado mais bruto e essencial.




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