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Quem decide o que é “hipersexualização”?

O debate sobre hipersexualização promete proteger corpos da objetificação, mas esbarra em fronteiras borradas de gosto, mercado e moral. Quem arbitra o “excesso” acaba ditando uma nova forma de censura

Quem decide o que é “hipersexualização”?

O debate sobre hipersexualização promete proteger corpos da objetificação, mas esbarra em fronteiras borradas de gosto, mercado e moral. Quem arbitra o “excesso” acaba ditando uma nova forma de censura

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Dizer que vivemos tempos obcecados pelo corpo é chover no molhado, mas talvez o que passe despercebido seja o peso que entregamos a certas palavras. “Hipersexualização” virou guarda‑chuva para tudo que incomoda num clipe pop ou numa série de streaming: close no quadril, letra insinuante, figurino que brinca com a nudez. Apontar o dedo tornou‑se reflexo quase automático, criado para sinalizar virtude num feed que recompensa indignação veloz. O problema surge quando percebemos que ninguém consegue explicar, sem recorrer a impressões pessoais, qual é o momento exato em que simples sexualidade escorrega para “hiper”. Vira uma espécie de régua invisível que oscila conforme o contexto sociocultural e o incômodo individual. Em outras palavras, faltam critérios sólidos além da sensação de que algo passou do ponto — e sensação, por definição, não basta como prova.

Dentro da lógica feminista que critica a objetificação, a intenção era clara: denunciar estruturas de consumo que reduzem pessoas, sobretudo mulheres, a adereços eróticos. Entretanto, ao popularizar o termo, corremos o risco de tratá‑lo como atalho moral que evita perguntas mais ásperas. Por que alguns corpos são lidos como “demais” enquanto outros não? Que papel desempenham raça, classe, orientação sexual e padrão de beleza nesse julgamento? Uma artista negra usando maiô cavado num festival é acusada de hipersexualizar‑se, enquanto uma cantora branca com espartilho vintage recebe aplauso por libertar‑se das amarras? O verniz politicamente correto mascara um duplo padrão que ainda hierarquiza quais corpos podem desejar e ser desejados.

Também precisamos perguntar onde fica a autonomia criativa. Sexualidade nunca foi apenas fetiche; é linguagem, metáfora, provocação estética. Desde o barroco até o videoclipe contemporâneo, arte e erotismo caminham juntos. Se toda exibição de pele for lida como hipersexualização, incorremos na censura que juramos combater. Michel Foucault lembrava que cada sociedade produz seus dispositivos de controle, e não há nada mais eficiente do que travestir controle de cuidado. Ao sugerir que “é para o seu bem” retiramos o direito de alguém decidir como exibir seu próprio corpo e qual história quer contar com ele.

Claro que existe exploração genuína: campanhas publicitárias que desumanizam, narrativas que vendem o estereótipo machista sem pudor. Identificar isso é necessário. Mas confundir exploração com qualquer forma de erotismo é caminho curto para o puritanismo. A luta contra a objetificação não deveria sufocar o prazer, o desejo e a autoexpressão sensual, componentes fundamentais da experiência humana. Quando moralizamos o sexo, acabamos punindo justamente os grupos que historicamente já foram silenciados em sua sexualidade: mulheres, pessoas LGBT+, corpos fora do padrão.

Vale lembrar que a indústria cultural responde a incentivos econômicos. Videoclipes não vendem apenas melodias; vendem desejos aspiracionais. Se o público consome imagens carregadas de erotismo, chama‑las de hipersexualizadas sem discutir o apetite que as sustenta é jogar a culpa na vitrine e absolver o comprador. A crítica precisa mirar as engrenagens de poder que definem quais fantasias ganham tela e quais histórias ficam de fora, em vez de demonizar o erotismo em si.

Talvez a saída seja abandonar a ideia de medir sexualidade em doses controladas e passar a analisar contexto, agência e intenção. Perguntar quem lucra, quem consente, quem é silenciado e quem fala por si. “Hipersexualização” pode continuar útil como alerta, desde que sirva a uma ética da liberdade e não à patrulha dos bons costumes. Caso contrário, trocamos a objetificação pelo moralismo e ficamos com o corpo preso na mesma velha armadilha, apenas com outro rótulo.

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Dizer que vivemos tempos obcecados pelo corpo é chover no molhado, mas talvez o que passe despercebido seja o peso que entregamos a certas palavras. “Hipersexualização” virou guarda‑chuva para tudo que incomoda num clipe pop ou numa série de streaming: close no quadril, letra insinuante, figurino que brinca com a nudez. Apontar o dedo tornou‑se reflexo quase automático, criado para sinalizar virtude num feed que recompensa indignação veloz. O problema surge quando percebemos que ninguém consegue explicar, sem recorrer a impressões pessoais, qual é o momento exato em que simples sexualidade escorrega para “hiper”. Vira uma espécie de régua invisível que oscila conforme o contexto sociocultural e o incômodo individual. Em outras palavras, faltam critérios sólidos além da sensação de que algo passou do ponto — e sensação, por definição, não basta como prova.

Dentro da lógica feminista que critica a objetificação, a intenção era clara: denunciar estruturas de consumo que reduzem pessoas, sobretudo mulheres, a adereços eróticos. Entretanto, ao popularizar o termo, corremos o risco de tratá‑lo como atalho moral que evita perguntas mais ásperas. Por que alguns corpos são lidos como “demais” enquanto outros não? Que papel desempenham raça, classe, orientação sexual e padrão de beleza nesse julgamento? Uma artista negra usando maiô cavado num festival é acusada de hipersexualizar‑se, enquanto uma cantora branca com espartilho vintage recebe aplauso por libertar‑se das amarras? O verniz politicamente correto mascara um duplo padrão que ainda hierarquiza quais corpos podem desejar e ser desejados.

Também precisamos perguntar onde fica a autonomia criativa. Sexualidade nunca foi apenas fetiche; é linguagem, metáfora, provocação estética. Desde o barroco até o videoclipe contemporâneo, arte e erotismo caminham juntos. Se toda exibição de pele for lida como hipersexualização, incorremos na censura que juramos combater. Michel Foucault lembrava que cada sociedade produz seus dispositivos de controle, e não há nada mais eficiente do que travestir controle de cuidado. Ao sugerir que “é para o seu bem” retiramos o direito de alguém decidir como exibir seu próprio corpo e qual história quer contar com ele.

Claro que existe exploração genuína: campanhas publicitárias que desumanizam, narrativas que vendem o estereótipo machista sem pudor. Identificar isso é necessário. Mas confundir exploração com qualquer forma de erotismo é caminho curto para o puritanismo. A luta contra a objetificação não deveria sufocar o prazer, o desejo e a autoexpressão sensual, componentes fundamentais da experiência humana. Quando moralizamos o sexo, acabamos punindo justamente os grupos que historicamente já foram silenciados em sua sexualidade: mulheres, pessoas LGBT+, corpos fora do padrão.

Vale lembrar que a indústria cultural responde a incentivos econômicos. Videoclipes não vendem apenas melodias; vendem desejos aspiracionais. Se o público consome imagens carregadas de erotismo, chama‑las de hipersexualizadas sem discutir o apetite que as sustenta é jogar a culpa na vitrine e absolver o comprador. A crítica precisa mirar as engrenagens de poder que definem quais fantasias ganham tela e quais histórias ficam de fora, em vez de demonizar o erotismo em si.

Talvez a saída seja abandonar a ideia de medir sexualidade em doses controladas e passar a analisar contexto, agência e intenção. Perguntar quem lucra, quem consente, quem é silenciado e quem fala por si. “Hipersexualização” pode continuar útil como alerta, desde que sirva a uma ética da liberdade e não à patrulha dos bons costumes. Caso contrário, trocamos a objetificação pelo moralismo e ficamos com o corpo preso na mesma velha armadilha, apenas com outro rótulo.

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