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Filme: “Aferim!” (2015), Radu Jude

Na Waláquia do século XIX, um cenário que evoca a secura de um western, uma peculiar missão de busca se desenrola. O policial Costandin, acompanhado por seu filho adolescente Ionita, atravessa planícies empoeiradas e aldeias rudimentares. Sua tarefa, encomendada por um abastado boiardo, é localizar Carfin, um escravo cigano acusado de fugir após um suposto…


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Na Waláquia do século XIX, um cenário que evoca a secura de um western, uma peculiar missão de busca se desenrola. O policial Costandin, acompanhado por seu filho adolescente Ionita, atravessa planícies empoeiradas e aldeias rudimentares. Sua tarefa, encomendada por um abastado boiardo, é localizar Carfin, um escravo cigano acusado de fugir após um suposto caso com a esposa do patrão. A jornada, central para o filme romeno ‘Aferim!’, dirigido por Radu Jude, é menos uma caçada e mais uma série de encontros que revelam as entranhas de uma sociedade profundamente estratificada.

Cada passo da dupla expõe as hierarquias brutais, a superstição arraigada e, sobretudo, a normalização da escravidão, uma chaga histórica pouco conhecida na Romênia do período. Costandin, figura paternal e pragmática, alterna entre a severidade e uma rudimentar filosofia de vida, enquanto Ionita, o filho, observa e questiona, representando um ponto de vista mais ingênuo e por vezes desconfortável. O diálogo é afiado, por vezes cômico em seu absurdo, por vezes brutal em sua franqueza. Através das conversas entre Costandin e Ionita, e com os diversos personagens que encontram – padres, judeus, otomanos, outros ciganos –, o filme mapeia um universo onde a liberdade é uma quimera para muitos e a identidade, um fardo.

Radu Jude utiliza a paisagem austera e a cinematografia em preto e branco para conferir uma autenticidade atemporal à narrativa, ao mesmo tempo que sublinha a severidade do tema. ‘Aferim!’ é uma meticulosa reconstituição de época que se recusa a romantizar ou simplificar o passado. O filme confronta frontalmente o espectador com a linguagem da época, evidenciando como o preconceito e a desumanização eram intrínsecos ao discurso social. A maneira como os termos depreciativos são usados cotidianamente, quase sem pensar, demonstra a performatividade da palavra na consolidação e perpetuação das estruturas de poder e opressão. Não há julgamento explícito dos personagens históricos, mas uma observação precisa de suas ações e mentalidades dentro de seu contexto. A questão da servidão humana e da liberdade precária de alguns em detrimento de outros permanece central, uma meditação sobre a permanência de certas estruturas sociais e preconceitos ao longo do tempo. É uma obra que se aprofunda na memória histórica, desenterrando não apenas fatos, mas as complexidades e as contradições que os sustentaram.


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