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Filme: “Conto de Outono” (1998), Éric Rohmer

Nos ensolarados vinhedos do Vale do Ródano, onde o verão cede lugar aos tons quentes do outono, a vinicultora Magali se aproxima dos cinquenta anos sentindo o peso da solidão. Viúva e com os filhos já crescidos, sua vida é preenchida pelo trabalho e por uma independência que, secretamente, a isola. Duas mulheres em sua…


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Nos ensolarados vinhedos do Vale do Ródano, onde o verão cede lugar aos tons quentes do outono, a vinicultora Magali se aproxima dos cinquenta anos sentindo o peso da solidão. Viúva e com os filhos já crescidos, sua vida é preenchida pelo trabalho e por uma independência que, secretamente, a isola. Duas mulheres em sua vida, movidas por afeto e uma certa presunção, decidem intervir. Sua melhor amiga, a livreira Isabelle, arma um plano clássico com uma reviravolta: publica um anúncio de classificados em nome de Magali, sem que ela saiba, e se encarrega de entrevistar os pretendentes. Simultaneamente, Rosine, a jovem namorada do filho de Magali, tenta arranjar um encontro entre a vinicultora e seu antigo professor de filosofia, um homem divorciado e eloquente.

Éric Rohmer constrói em Conto de Outono uma arquitetura de desejos cruzados e boas intenções que produzem uma teia de mal-entendidos e situações delicadas. As duas casamenteiras amadoras operam em segredo uma da outra, criando duas narrativas paralelas que estão destinadas a colidir. O filme acompanha os encontros de Isabelle com Gérald, um pretendente que parece ideal no papel, e as tentativas de Rosine de aproximar Magali de Étienne. A comédia e a tensão não surgem de eventos grandiosos, mas da minúcia das conversas, das meias-verdades contadas para proteger os sentimentos alheios e das complexas racionalizações que cada personagem cria para justificar suas ações. O palco para o desfecho é uma festa de casamento, um cenário perfeito para que todos os fios da trama finalmente se encontrem.

A obra se afasta de qualquer sentimentalismo para observar com uma curiosidade quase científica as mecânicas do afeto na maturidade. As atuações, especialmente a de Béatrice Romand como Magali, transmitem uma vulnerabilidade contida, a de alguém que anseia por companhia mas é orgulhosa demais para admiti-lo. As amigas de Magali operam sob uma lógica de controle, tentando engenhar a conexão. Contudo, a narrativa sugere que a ligação genuína talvez resida fora desses esquemas, no campo da contingência, do encontro fortuito que subverte qualquer planejamento. A direção de Rohmer é precisa e discreta, focada nos diálogos que revelam mais pelo que omitem do que pelo que dizem. A paisagem outonal francesa não é um mero pano de fundo, mas um participante ativo, seu ciclo de colheita e dormência ecoando o estado emocional de sua protagonista.

O filme funciona como uma celebração inteligente da conversa, do vinho e das formas por vezes desajeitadas que as pessoas encontram para demonstrar cuidado. Não há julgamentos morais sobre a manipulação bem-intencionada das amigas; há apenas a observação de um comportamento profundamente humano. Como peça final dos seus Contos das Quatro Estações, Rohmer oferece uma visão otimista e lúcida sobre as segundas chances e a possibilidade do amor quando menos se espera, demonstrando que a complexidade dos relacionamentos não diminui com a idade, apenas muda de forma, tornando-se, talvez, mais rica e saborosa, como um bom vinho que envelheceu bem.


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