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Filme: “New York, New York” (1977), Martin Scorsese

O Dia da Vitória no Japão inunda as ruas de Nova Iorque com uma euforia desenfreada, o cenário perfeito para um encontro casual que definirá duas vidas. Mas o primeiro contato entre Jimmy Doyle e Francine Evans está longe de ser um momento mágico de cinema. Ele é um saxofonista de jazz talentoso, mas egocêntrico…


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O Dia da Vitória no Japão inunda as ruas de Nova Iorque com uma euforia desenfreada, o cenário perfeito para um encontro casual que definirá duas vidas. Mas o primeiro contato entre Jimmy Doyle e Francine Evans está longe de ser um momento mágico de cinema. Ele é um saxofonista de jazz talentoso, mas egocêntrico e abrasivo, interpretado por um Robert De Niro em estado de combustão. Ela é uma cantora de Big Band com uma voz potente e uma ambição contida, personificada por uma Liza Minnelli que carrega o legado do género nas veias. O que começa como um assédio insistente transforma-se numa volátil parceria profissional e romântica, um percurso alimentado tanto pela atração mútua quanto por um conflito de egos que ameaça consumir tudo.

A relação que se desenrola é o motor de New York, New York. A jornada do casal através dos clubes noturnos e estúdios de gravação da era pós-guerra é uma crónica da colisão entre duas visões artísticas. De um lado, o jazz purista e intransigente de Jimmy; do outro, a sensibilidade mais comercial e a presença de palco magnética de Francine. Martin Scorsese documenta essa dinâmica com uma paciência quase clínica. Assiste-se à união de duas forças criativas opostas, uma tese e uma antítese que, por um breve momento, geram uma síntese musical explosiva, mas insustentável. A ascensão dela coincide com a frustração dele, e o amor que os une torna-se a mesma força que os separa, expondo a impossibilidade de conciliar a integridade artística com o sucesso popular e a vida a dois.

O que Scorsese constrói em New York, New York é uma autópsia do musical clássico da MGM, um género que ele claramente admira, mas que aborda com um bisturi revisionista. Os cenários deliberadamente artificiais e as cores saturadas, uma homenagem visual à era de ouro de Hollywood, servem de contraponto irónico à crueza das interações do casal, que têm a intensidade improvisada e desconfortável do cinema de John Cassavetes. O filme celebra a forma do musical enquanto esvazia o seu otimismo inerente. A sequência final, com o famoso número musical “Happy Endings”, funciona como um metafilme, apresentando o final feliz que a história de Jimmy e Francine deliberadamente nega ao espectador.

Lançado após o sucesso visceral de Taxi Driver, New York, New York foi um gesto audacioso e comercialmente arriscado, uma obra que se recusa a oferecer a catarse fácil associada aos musicais. É um filme sobre a dissonância no coração da harmonia, sobre o custo pessoal da ambição e sobre como, por vezes, as duas notas mais brilhantes simplesmente não conseguem soar bem juntas por muito tempo. Permanece uma peça fascinante e complexa na filmografia de Scorsese, uma homenagem que é também uma desconstrução, um filme que celebra a melodia enquanto expõe o ruído e a fricção por trás dela.


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