A jornada de Pasqualino Frafuso, um insignificante napolitano com uma superabundância de irmãs pouco atraentes e uma obsessão doentia pela honra da família, é o motor de ‘Pasqualino Sete Belezas’. O filme de Lina Wertmüller começa no microcosmo de uma Nápoles vibrante e caótica, onde Pasqualino, interpretado com uma fisicalidade magnética por Giancarlo Giannini, navega pela vida com a arrogância de quem tem muito pouco a perder. Seu apelido, “Sete Belezas”, é a primeira camada de ironia, um título honorífico autoatribuído para mascarar a mediocridade de sua existência e a de suas irmãs. Um crime passional, cometido para lavar uma mancha em sua reputação de bairro, desencadeia uma queda livre que o lança de um asilo psiquiátrico para as fileiras do exército de Mussolini e, finalmente, para a desolação de um campo de concentração alemão.
É nesse ambiente desumanizado que a análise do filme revela sua potência. Wertmüller despe Pasqualino de sua pose de macho alfa e o coloca diante do cálculo mais fundamental da existência. A sobrevivência aqui não é uma questão de coragem ou ideologia, mas de uma adaptação abjeta e pragmática. Longe de qualquer narrativa edificante, a estratégia de Pasqualino é usar a única ferramenta que lhe resta: seu carisma patético e sua sexualidade performática. Ele decide seduzir a comandante do campo, uma figura imponente e gélida, em uma das sequências mais perturbadoras e grotescas do cinema. A direção de Wertmüller não poupa o espectador, justapondo o horror da situação com um humor sombrio e desconfortável, criando uma estética do absurdo que expõe a fragilidade de qualquer código moral diante do imperativo de continuar vivo.
A obra não se encerra com a libertação. O retorno de Pasqualino a Nápoles é o ato final desta sinopse de sua desfiguração interna. Ele encontra sua cidade e sua família irreconhecivelmente transformadas pela mesma guerra que o consumiu. Suas irmãs, por quem ele supostamente matou, agora prosperam na prostituição, e sua busca por honra se revela uma piada cósmica. O Pasqualino que sobreviveu é um invólucro, um homem que pagou com a própria alma pela continuidade de seu corpo. O olhar final de Giancarlo Giannini para a câmera não oferece catarse, apenas o registro vazio de alguém que viu o fundo do poço da condição humana e se tornou parte dele para poder sair. ‘Pasqualino Sete Belezas’ permanece uma peça cinematográfica corrosiva sobre a mecânica da sobrevivência a qualquer custo.




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