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Filme: “Soldado Anônimo” (2005), Sam Mendes

Em 1990, Anthony Swofford, interpretado por um Jake Gyllenhaal em plena ascensão, alista-se nos Fuzileiros Navais seguindo uma linhagem familiar. Ele é moldado, desconstruído e refeito como um sniper de elite, uma peça precisa numa máquina de guerra afinada para o abate. Enviado para o deserto da Arábia Saudita durante a Operação Escudo do Deserto,…


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Em 1990, Anthony Swofford, interpretado por um Jake Gyllenhaal em plena ascensão, alista-se nos Fuzileiros Navais seguindo uma linhagem familiar. Ele é moldado, desconstruído e refeito como um sniper de elite, uma peça precisa numa máquina de guerra afinada para o abate. Enviado para o deserto da Arábia Saudita durante a Operação Escudo do Deserto, Swofford e seu pelotão aguardam a iminente Guerra do Golfo, movidos a testosterona, ansiedade e a promessa de ação que justificaria meses de treino desumanizante. A expectativa é a de um confronto direto, a consumação do propósito para o qual foram criados.

Contudo, a guerra que lhes foi prometida, o batismo de fogo para o qual foram exaustivamente condicionados, tarda a chegar. O inimigo é uma abstração, uma silhueta no horizonte que nunca se materializa. A narrativa de Soldado Anônimo, baseada nas memórias do próprio Swofford, desvia-se radicalmente do cinema de guerra convencional. O conflito não acontece nas trincheiras, mas dentro das tendas e, principalmente, dentro das cabeças dos fuzileiros. A rotina é um ciclo de tédio sufocante: patrulhas inúteis sob um sol inclemente, limpar rifles que nunca disparam, escrever cartas para esposas e namoradas que se tornam distantes, e provocar uns aos outros numa escalada de masculinidade performática que serve como única válvula de escape.

Sam Mendes, com a fotografia de Roger Deakins, compõe um quadro visual que é simultaneamente deslumbrante e opressivo. A paleta de cores desbotada, quase superexposta, transforma o deserto num purgatório de areia e céu, um espaço vasto que se torna psicologicamente claustrofóbico. A câmera captura a monotonia em planos longos e a histeria contida em closes tensos, pontuando a paisagem com imagens surreais, como uma partida de futebol americano com máscaras de gás ou os poços de petróleo do Kuwait ardendo em chamas, criando uma visão apocalíptica para uma guerra que, para eles, nunca aconteceu de fato.

O filme dialoga sutilmente com o conceito do absurdo, onde indivíduos são confrontados com a falta de sentido num universo indiferente. Os fuzileiros são preparados para uma única função, mas são privados do ato que daria significado à sua preparação. O verdadeiro conflito em Soldado Anônimo não é bélico, mas existencial. É uma análise clínica sobre a psique de homens programados para a violência e forçados à inação, onde a espera se torna uma forma de tortura. É o retrato de uma geração de combatentes cuja principal cicatriz não veio da batalha, mas da sua frustrante e enlouquecedora ausência.


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